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«Vestir [os estrangeirismos] à portuguesa»

aqui observámos que, nas notícias de âmbito internacional, a comunicação social portuguesa teima em empregar a forma "jihadista", enquanto jiadista, grafia adequada, aguarda pacientemente o dia em que terá a adoção e generalização devidas. Na rubrica O Nosso Idioma, José Mário Costa aponta "jihadista" como grafia incorreta, porque a palavra, que associa um sufixo do português – -ista – a um estrangeirismo – jihad, em árabe «luta» e «guerra santa» –, implica um aportuguesamento fonético e gráfico integral, incluindo o da sua base de derivação; ou seja, deve escrever-se jiadista, passando jihadjiade, porque a ortografia do português não aceita o h entre vogais1. Uma oportunidade para recordarmos o que, sobre a matéria, recomendava o filólogo português Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989), na sua incontornável Estilística da Língua Portuguesa (texto disponível aqui): «O estrangeirismo é um fenómeno natural [...] [mas] uma coisa é necessária, quando o estrangeirismo assentou já raízes na língua nacional: vesti-lo à portuguesa.»2

Ainda na mesma rubrica, assinala-se o regresso de Edno Pimentel com duas crónicas sobre erros frequentes tanto em Angola como noutros países de língua portuguesa: "Como (não) caber numa carteira" e "Um bom censo (espera-se) com bom senso".

Finalmente, falando ainda dos empréstimos de outras línguas no português, revelamos no consultório castelhanismos que ocorrem onde menos se espera e um galicismo pouco lisonjeiro.

1 Poderia argumentar-se que jihad é um nome próprio, o que legitimaria jihadista, à luz do estipulado pela Base I, 3.º do Acordo Ortográfico de 1990 (mantendo o disposto na Base II do Acordo Ortográfico de 1945): «[...] mantêm-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros, não tolerando substituição, quaisquer combinações gráficas não peculiares à nossa escrita que figurem nesses nomes: comtista, de Comte; garrettiano, de Garrett; jeffersónia, de Jefferson; mülleriano, de Müller; shakespeariano, de Shakespeare.» Não é disso que se trata, porque os dicionários registam jihad como nome comum (ver Dicionário Houaiss; Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora - disponível na Infopédia; Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

2Na perspetiva da linguística, leia-se o estudo de Tiago Freitas, Maria Celeste Ramilo e Elisabete Soalheiro, 2003. "O processo de integração dos estrangeirismos no português europeu", in Actas do XVIII Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa, Associação Portuguesa de Linguística, pp. 371-385.


 A Ciberescola da Língua Portuguesa e os Cibercursos disponibilizam recursos para o ensino-aprendizagem do português (língua materna e língua não materna) e organizam aulas individuais para estudantes estrangeiros (Portuguese as a Foreign Language). Mais informações no Facebook e na rubrica Ensino.


Renovamos o apelo SOS Ciberdúvidas, agradecendo, desde já, todos os contributos que os nossos consulentes entendam generosamente enviar-nos, de modo a garantir a manutenção deste serviço gracioso e sem fins lucrativos.

 

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa :: 13/10/2014

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