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«Crise "humanitária"» pode ser, afinal, considerada uma expressão válida?

Pode um uso, tido como incorreto, enraizar-se de tal modo, que os juízos em seu detrimento têm de ser revistos? Claro que sim, pelo menos, tendo em conta um exemplo que vem de Espanha. Apesar de a expressão castelhana «crisis humanitaria» (ou seja, «crise "humanitária"», já aqui muito criticada) não ter aprovação geral no país vizinho, a verdade é que a Fundación del Español Urgente (Fundéu) – entidade dinamizada pela agência Efe, que conta o apoio do BBVA e a assessoria da Real Academia Espanhola, promove o bom uso linguístico nos meios de comunicação de expressão castelhana – emitiu uma recomendação em que considera válida a associação de humanitario a substantivos como crisis (crise), catástrofe, desastre ou drama, em referência a uma situação que pressupunha a intervenção de organizações humanitárias: «En principio, la palabra humanitario significa ‘bondadoso y caritativo’ y ‘que busca el bien de todos los seres humanos’ y resulta un contrasentido en el contexto de un suceso que hay que lamentar, pero el giro puede considerarse una extensión válida por la falta de una expresión clara y concisa en español que aluda a este tipo de situaciones, generalmente asociadas a desastres naturales, conflictos o violencia generalizada y desplazamientos de población». Admitindo que «crise "humanitária"» configura um contrassenso – em espanhol, tal como em português, o adjetivo humanitário tem o mesmo sentido de «em prol da humanidade» – a Fundéu considera, porém, que se trata de uma extensão do emprego do adjetivo, a qual permite obviar à falta de uma fórmula mais económica. Além disso, acrescenta-se no referido parecer, trata-se de um uso consolidado no direito internacional humanitário.*

Os argumentos encontrados para o caso espanhol facilmente se transpõem para o português. Contudo, recorde-se que mesmo em inglês, língua em que humanitarian passou a andar associada a palavras de conotação negativa, nem sempre se considera que a nova aceção é marca de bom estilo. Teremos, mesmo assim, de habituar-nos à ideia de uma crise ser, afinal, humanitária? Fica aberta a discussão, mas, entretanto, voltamos a deixar as ligações às respostas e aos artigos que já dedicamos a este tema – unânimes a condenar tal uso:

HUMANITÁRIO; O inapropriado uso do adjectivo humanitário; Porque é incorreta a expressão «crise humanitária»?; Humanitáriohumano; Humanitário?; Errar também será "humanitário"?; Errar é humanitário?...; Como é que uma tragédia pode ser "humanitária"!?; Quando é que um drama pode ser "humanitário"?!; Caos "humanitário"?!; Humanitário e humano; A desumanidade e o humanitarismo.

* Posição contrária tinha há anos Fernando Lázaro Carreter (1923-2004), membro da Real Academia Espanhola, a propósito do massacre ocorrido em 1994 no Ruanda. O parecer então emitido por este académico espanhol pode ser lido no portal elcastellano.org.


Os usos variam, a língua muda, e até a norma se altera. A propósito da variação linguística no tempo e na sociedade, a rubrica O Nosso Idioma divulga uma reflexão muito interessante, que é feita na perspetiva de um falante do português do Brasil, o escritor e jornalista Alberto Villas (texto original publicado na versão digital da revista Carta Capital de 9 de abril de 2015). O consultório regressa com novas dúvidas, desta vez, sobre o substantivo fome, o verbo dar e o pronome o com valor de demonstrativo.

Recordamos que temos um novo endereço de correio eletrónico: ciberduvidasdalinguaportuguesa@gmail.com.


A informação que aqui veiculámos sobre a realização na terça-feira, dia 14/04, do fórum-debate "Pela Língua Portuguesa, diga não ao 'Acordo Ortográfico' de 1990!", na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelas 18h00, veio acompanhada de um esclarecimento suplementar.

Razão óbvia: as incorretas grafias da maior parte dos exemplos apontados no cartaz promocional (ao lado) corresponderem, antes, a erros ortográficos resultantes do desconhecimento e da generalização ilegítima dos novos preceitos. Como não podia deixar de ser, sendo este um espaço privilegiado de esclarecimento.

Formas como "abruto", em vez do correto abrupto, ou "fição", em lugar de ficção, que é a grafia de sempre, são simples hipercorreções; e, no cartaz, o jocoso "pato-de-regime", interpretável pelos menos informados como a nova grafia para a sequência «pacto de regime», é pura deturpação que nada tem que ver com o Acordo Ortográfico.

Só não entende esta preocupação pelo rigor do Ciberdúvidas no tratamento distinto entre informação/esclarecimento e opinião/controvérsias, em todo e qualquer assunto respeitante à língua portuguesa, mais ou menos polémicos – e tantos temas têm sido aqui tratados nestes 18 anos da sua existência, do Acordo Ortográfico à TLEBS/Dicionário Terminológico e às Metas Curriculares, por exemplo –, quem gostaria que o Ciberdúvidas deixasse de ser o espaço de referência que é no mundo da lusofonia, em toda a sua diversidade e absoluta equidistância de interesses, fações e campanhas sejam elas de que natureza forem.

[Cf. O Ciberdúvidas e o Acordo Ortográfico]


Ciberdúvidas da Língua Portuguesa :: 13/04/2015

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