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[Antologia] - Portugal

A minha língua

Guadalupe Magalhães Portelinha*


A minha língua é bonita como um vestido de domingo
é bela como o tempo
tem passado,  presente e futuro
tem sons que enchem a minha casa de afetos
afetos dos sentidos, dos cinco
afetos que me afetam e me tocam
me vestem e despem a alma
e arrancam
os pregos que me amarram
e alteram a minha vida, numa transformação física
e tem cores que se misturam na água da minha boca
numa solução química, ora doce ora amarga.
a minha língua fica às vezes presa com palavras
debaixo da outra língua que as quer esquecer
e  precisa  da memória para as recordar.
 
A minha língua é um universo
de palavras penduradas nas  estrelas
visitantes de planetas que esperam vida
procurando nebulosas e cometas errantes
a minha língua  pronuncia as palavras, como só ela
com os dentes, o palato, os lábios, a garganta, o nariz
e tem uma sonoridade especial
uma frequência linguística universal
e é pessoal na declinação
as palavras da minha língua não são submissas
têm um aprumo
uma firmeza  na forma
uma expressão eficaz
e uma eficácia na expressão
uma expressão musical de saudade
ou uma saudade musical
um afastamento, uma procura de infinito.
 
A minha língua é a minha pátria
que caminhou sobre as águas
galgou continentes e ficou murmurada em distantes lugares
desviada da  matriz histórica
descobriu os segredos do mar sem fundo
embrenhou-se  nas florestas
perdeu-se nos desertos
enfrentou  os olhos de animais nunca vistos
misturou a cor das savanas com o troar das cascatas
descobriu as margens, sem margem dos imensos rios
arranjou palavras novas, para surpresa do canto
dos pássaros com penas de arco-íris
sentiu a febre do calor e o arrepio do frio
fez sermões e falou aos peixes
capturou índios e na noite fez escravos
pela fé, cometeu pecados sem perdão
pela ganância, cometeu crimes sem redenção
foi amaldiçoada na sua tirania
e carrega a culpa e a expiação.
 
A minha língua percorreu
mares e céus
montanhas e areias brancas
molhadas pela torrente das lágrimas
e viajou com a alegria das gentes
e chorou com a tristeza cobrindo rostos
que a minha língua exprimiu
silaba a silaba, na voz do povo
em cantares de amor, de amigo, de fados
e tomou novos rumos
nuances sonoras das aves, dos lugares
dos ventos desconhecidos
do rumor das árvores de troncos largos
do cheiro da pimenta,  da canela, do gengibre
do odor do cravo e do alecrim  
do perfume da erva fresca e das flores vermelhas.  
 
A minha língua tem sons únicos
que enchem a boca silvando
e soam no nariz como trovões
sons antigos, porque
a minha língua é jovem, antiga e sábia
carrega a sabedoria das palavras onduladas do mar grego
traz dentro dela as estradas romanas
e o som dos cascos dos cavalos
o cantar sonolento e inebriante dos minaretes
a energia agressiva das  invasões bárbaras
os olhos rasgados dos impérios do Oriente
a sedução dos tambores negros da selva
e ficou uma língua nova, sendo velha
com rugas que são património
porque a minha língua é rica e bela
conjugada no  passado, presente e futuro.
A minha língua tem palavras caras
a preço médio, para todos,
palavras que podem ser perigosas, se levianas
que podem ser bravas, se de indignação
que podem ser fortes se de justiça
que podem ser doces, se de amor
que podem ser brancas, se de paz
que podem ser soltas, se de liberdade
que podem ser...
belas como as roupas de domingo
de muitas gentes
vivendo em  muitos lugares
belas e únicas como um vestido de domingo
que eu visto, na infância do tempo…
 
Junho, 2013

14/02/2014

Sobre o autor

* Guadalupe Magalhães Portelinha (1949), licenciada em Filologia Germânica, professora portuguesa aposentada.

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