A cabeleira da língua * - Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A cabeleira da língua *

Entra-se pelo subúrbio adentro, pode ser em Maputo, e deparamo-nos com as cores chibantes de um estabelecimento comercial. Na precária parede exterior o desenho de um rosto masculino, encimado pela mancha escura do que se adivinha ser a cabeleira e uma tesoura alada, sem ar ameaçador, como se de um pequenino ngingiritane se tratasse, pássaro lesto e brincalhão a debicá-la. Encimando a porta, em letras tropegantes mas gordas, cada uma de sua cor, o nome funcional e solene: Cabelaria Corte Rápido. Correm miúdos numa algaraviada de ronga e português solto, com um "vou-te bater, você, pá, se não dás essa minha bola!"

Ao lado, num verde-escuro inclinado, o balcão de uma das sucursais da cadeia de "fast-food" O Peixinho da Mamã, versão popular moçambicanizada de um qualquer Mc Donald's que só a cidade de cimento acolhe.

Pressurosos e chiantes, os chapas vão fazendo gincana por entre buracos cósmicos e outros inumeráveis obstáculos, incluindo gente. Os cobradores saltam para o exterior ou inclinam-se, estribados no último degrau, e gritam, apregoam os vários destinos das viagens; museu! Hulene! Choupal!. A bicha acotovela-se. Entram os que podem. Na frota de chapas "Os Verdinhos" a lotação é respeitada. Mamanas e operários que regressam a casa. Cinco mil meticais, tarifa única.

Metical, nome da moeda que entrou em circulação a 16 de Junho de 1980. A palavra vem de Mit'ghal, termo árabe-suaíli designando o antigo "dinheiro" no mercadejar entre o império do Mwenemutapa e o litoral centro-norte ou lembrança de aportuguesar moçambicanizando.

Nunca esquinada em preguiças tropicais, antes em alvoroço de apropriações e retraduções a partir das várias línguas de que o país é farto, a língua portuguesa ginastica-se em singularidades lexicais e sintácticas de que a fala comum é pródiga. Por vezes roçando incongruências ou "erros", ei-la que se libertou da canga colonial, do estigma rácico e terrível do "pretoguês", trocadilho aglutinando parolice e arrogância imperiais, para se marrabentar, solta e ágil, em sotaques vários consoante as regiões e os grupos linguísticos da grande árvore bantu de onde os seus falantes se alcandoram para a aventura de Caliban.

Este "português" é de todos porque é nosso. E vem swingando na "brincriação" neologística desde Rui Nogar a Ascêncio de Freitas ou de Craveirinha a Mia Couto. Mas não se estesia nisso. Ousa porque é servido pela "douta ingnorância" das falagens do povo ou pela combinatória mais erudita das experimentações literárias.

Ao alarmismo da ameaça do inglês, a rua responde sem precisar de saber do soneto de Olavo Bilac e da sua louvação à última flor do Lácio. A rua desconsegue esse mapeamento referencial. Usa-a com o mesmo descomplexo e a mesma necessidade com que vai ao bazar comprar camarão seco e já sabe que ao copinho pedido a vendedeira acrescenta a bacela da praxe.

Mais do que só factor de unidade nacional, como reiterava o jargão político-partidário, a língua vem-se expandido. Fala-se mais agora do que por alturas da independência. Há quem a tenha já por língua materna, o que, sendo fenómeno derivado da grande movimentação das populações em direcção aos núcleos urbanos para fugir da guerra, não deve ser só por si motivo de uma espécie de satisfação lusofonista especial.

Alargá-la ainda mais vai de par com o reforço das línguas nacionais. Todos aceitam esta evidência mas pouco se faz. Mais do que desconseguirem, as elites - passe o galicismo - preferem embrenhar-se na teia difusa dos seus negócios e interesses próprios.

Mas o povo desenrasca. Desenrasca sempre. Só falta mais troca: na universidade, na literatura, no teatro, na música.

Tudo porque o povo fala sempre a partir do "lugar onde" e não das suas derivações: o lugar onde se corta o cabelo só pode ser a cabelaria. Cabeleireiro é o oficial desse ofício. Como antes se dizia barbearia.

Depois, ou concomitantemente, que se leia Camões ou Pessoa, Drummond ou João Vário, Craveirinha e Pepetela. Tantos outros. E se abrace o cânone com a mesma arte erótica com que os amantes se fundem e transfiguram.

O resto são "as malhas que o império tece". Rasguemo-las de vez. Em merengue de samba com chigubo e fado, tudo a marinar em morna de sonhar na madrugada que desponta. Há-de despontar.

 

Sobre o autor

Luís Carlos Patraquim (Maputo, 1953), jornalista, poeta, escritor e autor teatral moçambicano, com diversificada obra publicada. Por exemplo, Monção (Edições 70 e Instituto Nacional do Livro e do Disco de Moçambique, 1980), A Inadiável Viagem (ed. Associação dos Escritores Moçambicanos, 1985), Mariscando Luas (Editora Vega, 1992), Lidemburgo Blues (Editorial Caminho, 1997), O Osso Côncavo e Outros Poemas (Lisboa, Editorial Caminho, 2005), Pneuma (Editorial Caminho, 2009), A Canção de Zefanías Sforza (Porto Editora, 2010), O Escuro Anterior (Companhia das Ilhas, 2013)  e De Cabeça para Bixo (Edições Húmus, 2020). Prémio Lusofonia 2021.