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Errar também será ´humanitário’? *

Wilton Fonseca**

«Em Portugal e em Angola, os jornalistas confundem [humano] com [humanitário]. Persistentemente. Tanto persistem que acabarão por vencer. Haverá um dia em que veremos à solta a "raça humanitária", a "espécie humanitária", o "ser humanitário".»

 

 

«Errar é humano.» Ou será que errar é “humanitário", como querem e insistem os jornalistas?

[No dia 11/08/2014], o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa chamou mais uma vez a atenção dos seus leitores para a diferença entre humano e humanitário. Em Portugal e em Angola, os jornalistas confundem um com o outro. Persistentemente. Tanto persistem que acabarão por vencer. Haverá um dia em que veremos à solta a "raça humanitária", a "espécie humanitária", o "ser humanitário"– num cenário de tragédia, desgraça e sofrimento humanos, sem auxílio ou ajuda humanitária que lhes valha.

No dia 10 de Agosto, o "Público" trazia a palavra "humanitária" em três títulos. Lia-se: «A Líbia está a poucos dias de uma catástrofe humanitária»; «Situação humanitária em Gaza continua a deteriorar-se»; «A invasão do Leste da Ucrânia pode acontecer sob a forma de ajuda humanitária». A palavra está na moda, o sofrimento "humanitário" é artigo abundante no mercado.

A confusão entre humano (próprio do homem, relativo ao homem) e humanitário (que visa o interesse ou o bem-estar da humanidade) não se verifica no Brasil. Tão-pouco em França ou nos países de língua inglesa ("l'être humain", "l'aide humanitaire", "the human race", "humanitarian aid"). A confusão talvez tenha surgido numa tradução apressada, e pode ser verificada nas versões portuguesas de documentos europeus. Fica por explicar a eternização e a popularização do erro.

Penso que a batalha "humanitária" está perdida em Portugal. Não há nada a fazer. Talvez ainda haja esperança em Angola?

 

N.E. – A confusão entre humanitário e humano encontra paralelo noutras línguas que, além de disporem da palavra derivada de HUMANUS (human em inglês ou humano em espanhol), contam também com a adaptação do francês humanitaire (humanitarian em inglês e humanitario em espanhol). A confusão parece ter começado em inglês e ainda não é plenamente aceite pelo bom estilo, como se pode ler no Oxford English Dictionary: «The primary sense of humanitarian is `concerned with or seeking to promote human welfare´. Since the 1930s a new sense, exemplified by phrases such as the worst humanitarian disaster this country has seen, has been gaining currency, and is now broadly established, especially in journalism, although it is not considered good style by all. In the Oxford English Corpus the second most common collocation of humanitarian is crisis» [tradução livre: «O sentido principal de humanitarian é "que se preocupa com ou trata de promover o bem-estar humano". Desde a década de 30 do século XX, como exemplificam expressões como the worst humanitarian disaster this country has seen (= o pior desastre humanitário que o país já conheceu), um novo significado ganhou uso corrente e generalizou-se, especialmente no jornalismo, embora nem toda a gente o considere bom estilo. No Oxford English Corpus, a segunda colocação mais comum de humanitarian (= humanitário) é crisis (= crise)»]. Quanto ao espanhol, o Fundéu regista uma confusão homóloga – entre humanitario e humano –, não a aprovando totalmente.

 

Outros textos do autor

* texto publicado na coluna do autor "Pontos nos ii", no jornal i, de 14 de agosto de 2014, com o título original "Humanitário". Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico seguida pelo jornal. :: 15/08/2014

Sobre o autor

** Wilton Fonseca é um jornalista português nascido no Brasil. Licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa), onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.

 

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