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Humanitário? *

António Bagão Félix**

O indevido emprego do adjetivo humanitário em vez de humano – neste apontamento do autor no blogue Tudo Menos Economia.

 

 

No contexto de globalização e de "torre de Babel" linguística em que se vive, a usura das palavras e expressões segue a um ritmo alucinante. E, em paralelo, a língua portuguesa vai servindo de barriga de aluguer de outros tantos vocábulos (mal) importados.

Há uma catadupa de vocábulos assimilados pela epiderme e digeridos pela iliteracia, às vezes pretensamente snobe. Por exemplo, em vez de se dizer «supõe-se que o homem não se apercebeu como o projecto foi realizado», diz-se agora profusamente «é suposto que o homem não realizou como o projecto foi implementado».

Mas o que me traz agora à escrita, é o indevido uso da palavra humanitário que talvez advenha de uma distorcida importação do inglês humanitarian. Enquanto adjectivo, significa que «proporciona ou promove o bem-estar humano e social». Por isso se pode falar de valores humanitários, ajuda ou auxílio humanitários, programa humanitário, cooperação humanitária ou acolhimento humanitário.

O que está errado é usar o adjectivo em situações que são tudo menos humanitárias. Por exemplo, catástrofe humanitária, tragédia humanitária, desastre humanitário, crise humanitária. Ou será que a tragédia é humanitária, em vez de humana ou social?

Franz Kafka disse um dia que «uma das coisas que devemos sempre respeitar é a língua, porque ela nos une». Por mim, sei que não posso evitar todos os erros, mas vou tentando e corrigindo.

* in blogue Tudo Menos Economia, de 16/02/2015. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico, seguida pelo autor. :: 16/02/2015

Sobre o autor

** António Bagão Félix, economista, professor universitário português, várias vezes chamado a exercer funções governativas. Comentador e colunista em diversos órgãos de comunicação portugueses, é autor, entre outros livros, de Do lado de cá ao deus-dará (2002), e O cacto e a rosa (2008), Prefácio sobre a "origem do conto do Vigário" de Fernando Pessoa (2011) e Trinta árvores em discurso directo (2013).

 

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