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Humanitário ≠ humano

Maria Regina Rocha* , José Mario Costa**

     As mortes e toda a tragédia à volta de uma guerra – como a que está a devastar o Líbano – voltaram a ser qualificadas de "humanitárias", lado a lado com o seu contrário (os corredores que a ONU e as organizações internacionais tentam preservar para auxilio dos refugiados, esses, sim, humanitários).
     A generalização do erro – por arrastamento, até, do “humanitarian” inglês, com o mesmo significado do nosso humanitário («que visa o bem-estar da humanidade», «em prol da humanidade», «que tem sentimentos de humanidade», «filantrópico») — resulta nesse absurdo de se qualificar indistintamente palavras com um valor semântico antagónico.
     Para a descrição dos efeitos de uma guerra (ou de um qualquer cataclismo natural) a palavra adequada é humano, que significa «relativo ao homem», «próprio do homem». Portanto, catástrofe humana, tragédia humana, situação humana catastrófica , caos humano – assim como se disse e escreveu sempre desgraça humana, miséria humana, sofrimento humano, etc., etc.
     O que se faz em prol da paz entre beligerantes, em apoio às populações vítimas das guerras ou de um terramoto é que é humanitário. Logo, iniciativa humanitária, missão humanitária, etc.

04/08/2006

Sobre os autores

* Maria Regina Rocha, licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa; mestrado em Ciências da Educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e doutoranda na mesma; professora na Escola Secundária José Falcão, em Coimbra; larga experiência pedagógica no ensino politécnico (Escola Superior de Educação de Coimbra) onde lecionou várias disciplinas na área da Língua Portuguesa. Coautora, entre outros livros, de Cuidado com a Língua!, Assim é que é falar! 201 perguntas, respostas e regras sobre o português falado e escrito, e A Gramática – Português – 1.º Ciclo.

** José Mário Costa é um jornalista português, cofundador (com João Carreira Bom) e responsável editorial do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Autor do programa televisivo Cuidado com a Língua!, cuja primeira série se encontra recolhida em livro, em colaboração com a professora Maria Regina Rocha. Ver mais aqui.

 

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