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[Controvérsias]

Precariedade, sem aspas *

Wilton Fonseca**

A crónica do autor publicada no jornal “i” do dia 23 de agosto de 2014, sobre o emprego das aspas tinha uma referência ao barbarismo “precaridade”, (mal) empregado num relatório do Tribunal de Contas português. Dicordante da crítica, o seu diretor-geral alegou a sua atestação dicionarística (ver em baixo1) – e, daí, o seu uso comum. É exatamente ao contrário, como se comprova a seguir.

 

[Sobre esta controvérsia, ver ainda: Precariedade “versus” “precaridade” + Precariedade, sem aspas + Precariedade... por mais que haja quem a ponha em causa] + Polémicas liguísticas]

 

 

Precaridade” fora utilizada, com aspas, num artigo do “Público” que citava um documento do Tribunal de Contas. As aspas indicavam que o jornalista se distanciava do termo, certamente por conhecer precariedade2

 Afirmei na crónica [do dia 21/08] que não me interessava verificar a hipotética «barbaridade» (objecto de uma carta de um leitor do “Público”), mas que as aspas eram bom tema para o “ponto do i”.

Ao contrário daquilo que o [director]-geral do Tribunal de Contas  escreve, “precaridade” não é de uso «comum» . Por isto não ser facilmente provado, não vale a pena perder tempo com o assunto. O  que pode ser provado e comprovado é que – ao contrário daquilo que o [director]-geral do Tribuna de Contas escreve – “precaridade” não se encontra «confirmado» nos dicionários portugueses” (penso que se refira aos dicionários da Língua Portuguesa). Basta fazer as contas. A entrada precariedade (e não “precaridade”) surge, entre outros, no Dicionário da Academia [das Ciências de Lisboa], no Houaiss, no Aurélio, no vocabulário de José Pedro Machado, no dicionário etimológico de Geraldo da Cunha, no Priberam, no dicionário da Porto Editora (a familiaridade com que menciono títulos e autores é questão de economia de espaço). No seu Vocabulário da Língua Portuguesa, Rebelo Gonçalves afirma que “precaridade” é uma forma «inexacta» de precariedade.

O Novo Dicionário Integral da Língua Portuguesa (Texto Editora) abre uma entrada para “precaridade”. Remete o leitor para precariedade, mostrando a sua preferência por esta forma, junto à qual surge a necessária definição.


O mesmo acontece no dicionário electrónico de Cândido de Figueiredo. O Grande Dicionário da Porto Editora parece ter registado as duas formas em algumas edições, mas na mais recente apenas insere  precariedade.

No caso do Morais, as duas formas são registadas. Como todos sabemos, o Morais não pode nem deve ser confundido com «os dicionários portugueses». 

Precariedade respeita as regras de boa formação morfológica da Língua Portuguesa: os adjectivos com a terminação átona -io (sério, transitório, obrigatório) formam os substantivos correspondentes por aposição do sufixo -edade (seriedade, transitoriedade, obrigatoriedade). “Precaridade” talvez surja de uma confusão com palavras formadas por aposição do (também frequente) sufixo -idade (menor/menoridade, regular/regularidade, anormal/anormalidade).

 

1 N.E. – Com as apas, o jornalista, de facto, não quis assinalar o mau uso da forma “precaridade”, mas – como refere o provedor do leitor do “Público” em “Polémicas linguísticas” –, assinalar essa acusação do Tribunal de Contas à política orçamental do Governo português.

2 Exmo. Senhor Diretor do jornal “I”

Na sequência da publicação do artigo assinado por Wilton Fonseca com o título “Aspas”, [onde] se faz referência, citando o jornal Público, à palavra “precaridade” usada num relatório do Tribunal de Contas, como uma hipotética “barbaridade” venho solicitar a V. Exas. a clarificação sobre o referido vocábulo, uma vez que o seu uso é comum e se encontra confirmado nos dicionários portugueses, nomeadamente:

1- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

2- Grande Dicionário da Língua Portuguesa.

3- Novo Dicionário da Língua Portuguesa.

4- Dicionário de Morais

(...)

José F.F. Tavares

(diretor-geral do Tribuna de Contas)

 

Outros textos do autor

* texto publicado na coluna do autor "Pontos nos ii", no jornal i, de 28 de agosto de 2014. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico seguida pelo jornal. :: 01/09/2014

Sobre o autor

** Wilton Fonseca é um jornalista português nascido no Brasil. Licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa), onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.

 

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