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[Controvérsias]Análise e classificação gramaticais

Sobre o predicativo do sujeito II

Carlos Rocha*

O que Virgílio Dias (V. D.) põe em causa é apenas a aplicação do termo «predicativo do sujeito» a um dado constituinte sintáctico, e não a existência deste. A questão é, portanto, de natureza terminológica, porque não vejo diferença entre a análise que V. D. faz das várias frases que apresenta e as que, tendo por objecto as mesmas frases, podem decorrer da gramática tradicional ou de certas abordagens da investigação linguística.

Atente-se nesta passagem do artigo Os predicados secundários ou predicativos, de V. D.:

«Atributo é todo o constituinte que, sob qualquer forma categorial, exprime uma qualidade ou um modo de ser do referente do nome a que ele se liga por meio dum verbo copulativo.
Na frase:
João é alegre
— "alegre" é um atributo; categorialmente, é um adjectivo. A qualidade da alegria é, nesta frase, atribuída ao João pelo verbo ser.
O mesmo acontece com o adjectivo saudável na frase
Joana é saudável.
Fixemo-nos bem nesta frase. Falamos de Joana. Que dizemos dela?
— é saudável.
O que dizemos do sujeito é predicado. Logo, é saudável é predicado.»

V. D. considera, portanto, que existe um constituinte, «é saudável», por sua vez analisável em dois constituintes, um realizado por um verbo copulativo («é») e outro com função de atributo («saudável»). Ora, esta análise tem uma configuração muito semelhante — se não mesmo idêntica — às feitas quer no quadro tradicional quer no âmbito de certas propostas da linguística contemporânea: também aqui se descreve um constituinte que, do ponto de vista semântico-pragmático, é um comentário ao tópico da frase (que, em português, muitas vezes coincide com o sujeito) e que nas análises lógico-semântica e sintáctica se chama predicado. A divergência fundamental com a proposta de V. D. reside no facto de, na análise tradicional, o segundo constituinte de «é saudável» — «saudável» — ser designado por predicativo do sujeito.

Susceptível de polémica é, portanto, o emprego do termo «predicativo do sujeito» para designar o constituinte que, do ponto de vista semântico, se pode classificar como atributo. E, efectivamente, expressões como «complemento predicativo do sujeito» — mais até do que «nome predicativo do sujeito» — podem não ser satisfatórias, embora sejam também usadas na descrição gramatical de outras línguas próximas do português. Por exemplo, sobre o espanhol, vale a pena atentar na seguinte passagem da Nueva Gramática Española da Real Academia Espanhola (Madrid, Espasa Libros 2010, p. 17):

«Se seguirá aqui la tradición al incluir los ATRIBUTOS, una de cuyas variantes son los COMPLEMENTOS PREDICATIVOS, en el paradigma de las funciones sintácticas: Hoy está tranquilo; No lo pongas nervioso. Aún así, se ha señalado en no pocas ocasiones que se asimilan a los predicados, en lugar de a los argumentos, a diferencia de casi todas las demás funciones sintácticas.»

Ou seja, é claro que a estrutura formada por um verbo copulativo e por um atributo forma um predicado, não se podendo dizer que esse atributo é um complemento do verbo, porque não se trata de um argumento verbal.

Também convém esclarecer que, chame-se ao constituinte em discussão atributo ou predicativo do sujeito, certas gramáticas (enquadráveis na tradição descritiva brasileira) não ignoram a existência de predicações secundárias, de uma forma que, quanto a mim, é semelhante à noção de predicativo proposta por Virgílio Dias. É o caso de Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, 2002, pág. 248), onde se identificam dois tipos de predicativo: o que está associado a um verbo copulativo («O sol está quente»), e o que pode coocorrer com predicados simples ou complexos, «referidos ao sujeito, ao complemento directo, ao complemento relativo e ao complemento indirecto» — a que chama «anexo predicativo», seguindo Said Ali: «Os trens chegaram atrasados»; «A polícia encontrou a porta arrombada.» (predicativo do complemento directo).  Aqui, concordo com V. D.: embora em Portugal não se considere este tipo de predicativo (ou atributo ou predicação), valeria a pena contemplá-lo na descrição gramatical.

Finalmente, gostaria de esclarecer que usei o termo predicativo do sujeito, pela razão de a resposta se destinar a um docente, provavelmente mais familiarizado com a análise gramatical tradicional, que foi ou tem sido veiculada pelas escolas; além disso, o referido termo encontra-se no Dicionário Terminológico (DT) cuja intenção explícita é apoiar o ensino da gramática em Portugal. Tanto a gramática tradicional como o DT têm certamente pontos criticáveis, mas pretendi tão-somente dar conta de como se procede comummente, em contexto escolar, à análise dos chamados predicados nominais. Reconheço pertinência às objecções levantadas por V. D.— mas, repito, não creio que o problema se relacione com uma incorrecção de análise sintáctica, como às vezes ele aponta no artigo enviado ao Ciberdúvidas, ou como acusa, num estilo mais veemente, no comentário à minha resposta.

Cf. Sobre o predicativo do sujeito (Virgílio Dias) I; Os predicados secundários ou predicativos

01/08/2011

Sobre o autor

* Carlos Rocha é licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e mestre em Linguística pela mesma faculdade. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King´s College de Londres. Professor do ensino secundário, é o editor executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 

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