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[Controvérsias]Locuções

À distância, e não à pressa

Pedro Múrias*

«Ensino a distância», ou «ensino à distância»? O consulente Pedro Múrias (jurista, Lisboa) mostra defende que «ensino à distância» encontra apoio em certas expressões fixas.


Em várias respostas e sem discordância recente, o Ciberdúvidas tem defendido que se deve dizer e escrever «a distância» em vários casos em que o uso consagra «à distância». Venho tentar persuadir os consultores do Ciberdúvidas de que não é essa a melhor opção e de que se justifica inverter a orientação seguida.

Não geram dúvidas os casos como «à distância de 100 metros», «à distância de um telefonema» ou «à distância que lhe convém», em que a «distância» é determinada pelas expressões que se lhe seguem. As muitas perguntas dirigidas ao Ciberdúvidas e a discussão que pretendo suscitar respeitam apenas àqueles casos em que o sentido transmitido é o de haver alguma distância entre os dois objectos de interesse, mas sem que se especifique qual. São construções frequentes deste género, p. ex., «ensino à distância», «trabalho à distância» e «contratação à distância». Na tese da maioria dos consultores do Ciberdúvidas, mas que tenho por criticável, as formas correctas seriam «ensino a distância», «trabalho a distância» e «contratação a distância».

Como ponto prévio, sublinho que o uso é esmagadoramente favorável à construção que prefiro. Nos usos espontâneos da língua, ou seja, quando os falantes não reflectem sobre as regras da língua e sobre quais as formas correctas, rarissimamente se ouve «o ensino a distância». Diz-se sempre «o ensino à distância». Não é assim por acaso. É assim porque a intuição — um aspecto essencial do conhecimento da língua materna — sustenta esse uso. Por isso mesmo, José Neves Henriques, consultor do Ciberdúvidas, escreveu o seguinte numa resposta de 12 de Novembro de 1999:

«A língua/linguagem não é somente para ser compreendida. É também para ser sentida. Temos de a sentir para nos exprimirmos com perfeição. Quem for ainda capaz de sentir a língua/linguagem qual das duas frases seguintes prefere?

1. O ensino à distância é necessário e muito proveitoso.

2. O ensino a distância é necessário e muito proveitoso.

A palavra distância tem aqui forte valor semântico, porque mostra a natureza do ensino que se exerce. Se suprimirmos o artigo definido, suprimimos ao substantivo distância parte desse valor que lhe pertence.

Mais ainda: o artigo antes de «ensino» é pronunciado de maneira débil, e até muito débil, por várias pessoas. Quando tal acontece, pode alguém interpretar como complemento directo o elemento a distância. E então poderá, de começo, perceber a seguinte frase:

[Eu] ensino a distância.

Isto poderá facilmente acontecer com a pronúncia de Lisboa, em que tanta gente «come» som, principalmente os vocálicos. Concluindo: a linguagem preferível parece ser esta: “ensino/apoio/transmissão, formação, comunicação, etc., etc. à distância.” Sim... “tem mais vida!”, como afirma a prezadíssima colega Júlia Miguel.»

Passemos aos argumentos. No entender dos actuais consultores do Ciberdúvidas, «à» é necessariamente a contracção da preposição «a» com o artigo definido «a». O uso de um artigo definido, por seu turno, dependeria sempre da especificação, da determinação pelo contexto ou pela própria frase enunciada da entidade a que se refere o substantivo que o artigo antecede. Como, nas formas tidas em vista, se faz referência a alguma distância, mas não a esta ou àquela distância determinada, não seria aqui admissível um artigo definido, ainda que em contracção, e a forma «à» não seria aceitável. «Ensino a distância» seria a única versão correcta. É esta a totalidade da argumentação dos consultores do Ciberdúvidas. Simples e lógica, pareceria ter de conduzir à solução certa. Na verdade, porém, trata-se de uma argumentação à pressa, sem ter em conta toda a complexidade relevante da língua portuguesa, e contrária ao ensinamento de insignes gramáticos portugueses e brasileiros que consideraram o assunto.

Uma falha deste raciocínio reside em que, por vezes, a presença ou ausência do artigo definido é relativamente arbitrária e não corresponde linearmente à oposição entre determinado e indeterminado. Por exemplo, pode muitas vezes dizer-se sem mudança de sentido «de noite» e «durante a noite», «em caso de incêndio» e «no caso de incêndio», «por vontade dela» e «pela vontade dela», ou «com ajuda dele» e «com a ajuda dele». Por isso, a segunda premissa usada pelos consultores do Ciberdúvidas não é verdadeira, com a generalidade com que foi apresentada. Nem sempre o uso do artigo definido depende da determinação da entidade referida.

Mas também a primeira premissa é falsa, e este é o aspecto decisivo. Em muitos casos em que surge a construção à + substantivo feminino, a interpretação deste à como contracção da preposição a com o artigo definido singular a não tem apoio no sentido dessas expressões nem na forma de expressões sinónimas que se lhes pudessem substituir. Por exemplo:

Quando uma coisa é feita à pressa, é feita por alguém que estava com pressa, e não por alguém que estava «com a pressa» (com uma específica pressa já identificada).

Quando se resolve um assunto à paulada, resolve-se esse assunto dando paulada, ou dando pauladas, e não dando «a paulada».

Se um trabalho é feito à mão, é feito com as mãos, e não com «a mão» previamente identificada.

Roupa cosida à máquina é roupa cosida com uma ou mais máquinas, e não com «a máquina».

Um nevoeiro de cortar à faca é um nevoeiro de cortar com uma faca, e não com «a faca».

Uma coisa posta à venda é uma coisa posta para venda, e não «para a venda».

Pescar à linha é pescar com linha, e não «com a linha».

Fechar as portas à chave é fechar as portas com chave ou com as chaves respectivas, e não com uma certa chave só.

O que sucede nestes casos é o que tem de suceder com «à distância». E, se a tese dos consultores do Ciberdúvidas procedesse, teria de proceder para todos eles. Teríamos de dizer «comer a pressa», «resolver um assunto a paulada», «um trabalho feito a mão», «roupa cosida a máquina», «nevoeiro de cortar a faca», «um livro posto a venda», «pescar a linha», «fechar as portas a chave».... Se isto é absurdo, também é absurda a tese do «a distância».

A razão de ser de todos estes casos em que aparece um à sem que nele se possa divisar o artigo definido a encontra-se no facto de que a simples utilização da preposição a seguida de um substantivo feminino geraria uma ambiguidade ou, pelo menos, diminuiria a clareza da frase. Um a seguido de substantivo comum feminino singular, sem mais, é em princípio interpretado como artigo definido. Para evitar esta interpretação nos casos em que se usa a preposição a, a criatividade da língua portuguesa transformou o a em à. Assim se evitam hesitações a contento de todos.

Isto que aqui escrevo não é novidade. Muitos autores importantes se pronunciaram a favor da forma «à distância». Celso Cunha e Lindley Cintra, por exemplo, incluem-na numa lista de locuções adverbiais (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 8.ª ed., João Sá da Costa, Lisboa, 1991, p. 541). E alguns explicam detidamente a razão de ser do à. Veja-se Rocha Lima, Gramática Normativa da Língua Portuguesa, 32.ª edição, p. 382:

«Nem sempre — e aí é que bate o ponto — o a acentuado é resultado de crase. Assim por motivos de clareza como para atender às tendências históricas do idioma, recebem acento no a, independentemente da existência de crase, muitas expressões formadas com palavras femininas: apanhar à mão, cortar à espada, fechar à chave, à força, à noite, à pressa, à toa, à ventura, à míngua de, à semelhança de, à medida que.»

Querendo consultar uma lista de linguistas que se pronunciaram no mesmo sentido e uma lista de abonações de bons escritores que usaram a forma «à distância», veja-se uma página na Internet da autoria de Josué Alves da Silva (de 19 de Junho de 2009).

Quando o uso, a intuição, os lugares paralelos, uma explicação razoável e os bons autores apontam no mesmo sentido, nada justifica que sigamos a tese contrária, com o único fito de dar uma explicação mais simples do uso de certa forma na nossa língua. Espero, pois, que o Ciberdúvidas volte a apoiar a forma «à distância», assim prosseguindo no seu papel essencial de defesa da língua.

[Cf. Breve história recente de «a distância» e Três razões para ser «à distância» (e não «a distância»]

03/05/2011

Sobre o autor

* Pedro Múrias (Benavente, 1970) é um Jurista português mestre em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. À sua atividade de jurista e advogado juntou a de Professor Universitário na faculdade onde se formou. Dentro da sua área de formação publicou alguns artigos de referência, nomeadamente, A responsabilidade por actos de auxiliares e o entendimento dualista da responsabilidade civil, 1996, Bute falar de predicadores rígidos!, 2004, Uma separação antipositivista entre a moral e o direito, 2007, entre outros.

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