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O discurso de Obama *

Ana Martins**

Que semelhanças há entre Obama e o padre António Vieira? Pelo menos duas: o espectáculo da palavra e o fervor religioso. Na Igreja de S. Roque era preciso reservar lugar para ouvir os sermões de Vieira; no Grant Park, em Chicago, 240 mil pessoas vibraram durante os 15 minutos da elocução de Obama1: comoveram-se com o poder da «esperança» (a palavra surge 6 vezes); regozijaram-se com o apelo à comunhão, em função de um «destino comum», de todos os cidadãos americanos e de todos os cidadãos do mundo; aclamaram a apologia da «humildade», a mobilização por uma «causa», a resposta à «chamada»; responderam em coro, como numa oração, ao «credo»: «Sim, podemos» («Yes, we can»).

Claro que as principais técnicas da arte oratória estão lá. Estão lá os artifícios estilísticos: as metáforas («O caminho à nossa frente vai ser longo»; «o farol da América ainda brilha»); as antíteses («frio terrível… calor sufocante»; «desertos do Iraque… montanhas do Afeganistão»), a apóstrofe («Mas América, …»), a anáfora («É a resposta… É a resposta»). Estão lá os argumentos de autoridade, quer por citação directa («Como Lincoln disse…»), quer por ressonância de vozes de outros oradores (como a voz de Martin Luther King Jr., na alusão ao «arco da história»; ou a do reverendo Charles Tindley, no célebre «we shall overcome»). Há, inclusivamente, o recurso ao exemplo, no relance da vida daquela eleitora de 106 anos, de Atlanta.

À parte disto, o poder galvanizante do discurso de Obama assenta em dois importantes eixos, que se tornam visíveis se atendermos ao modo como é representado o momento da enunciação e se repararmos como são usados os pronomes.

«Esta noite», diz ele, «é a resposta»: a experiência colectiva deste momento presente («este momento definidor») é configurada como o vértice temporal da transição, da «mudança».

A vitória é imputada a «vós», apoiantes da campanha, que compreenderam a tarefa que «nos espera» — a «nós», Democratas, a «nós» povo americano. A fusão fica completa na promessa que Obama faz em nome de todos: «Prometo-vos. Nós, enquanto povo, chegaremos lá.»

Eis a osmose entre locutor e audiência que todo orador procura.

1Ver: versão original.

* Artigo publicado no semanário Sol de 11 de Outubro de 2008, na coluna Ver como Se Diz. :: 16/11/2008

Sobre a autora

** Ana Martins é linguista, consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa. Autora de A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa - 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.

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