ciberduvidas Ter dúvidas é saber. Não hesite em nos enviar as suas perguntas. Os nossos especialistas e consultores responder-lhe-ão o mais depressa possível.

[Ensino]Controvérsias

Que visão sobre o ensino da língua? *

João Costa**

As Metas Curriculares do Português no 1.º ciclo do Ensino Básico, em vigor em Portugal desde o ano letivo de 2013/2014 –, escreve o autor, neste artigo muito crítico saído no jornal “Público” de  9/03/2015 –, «são um ato de irresponsabilidade política e uma vontade de deitar dinheiro à rua. [E], na área da Gramática, constituem um retrocesso lamentável a um delírio classificatório e, em outros domínios, cometem erros como a confusão entre testes psicolinguísticos e metas de aprendizagem, que obrigam os professores de 1.º ciclo a contar, de cronómetro na mão, quantas palavras e pseudopalavras os seus alunos leem por minuto.»

 

 

O Despacho 2109/2015 do ministro Nuno Crato, publicado em fevereiro, determina que se procederá, com a maior brevidade possível, à elaboração de uma nova proposta de Programa de Português para o Ensino Básico.

Este despacho e esta determinação são um ato de irresponsabilidade política e uma vontade flagrante de deitar dinheiro à rua, no fim de um mandato em que, em nome das poupanças, se cometeram erros gravíssimos no ensino público.

Está em vigor o Programa de Português do Ensino Básico, que foi homologado em 2009, tendo entrado plenamente em funcionamento apenas em 2011, quando todos os anos de escolaridade foram abrangidos pelo programa. Tive a oportunidade de acompanhar o que antecedeu a elaboração desse programa, o que foi a sua elaboração e o que se lhe seguiu. Vale a pena recuperar algumas etapas:

Para a preparação do programa foram feitos estudos de eficácia do programa anterior, com avaliação dos resultados dos alunos em provas de aferição e exames nacionais, foram promovidos estudos de comparabilidade entre os programas de língua materna em vigor nos países da OCDE, foram estabelecidas correlações entre programas de língua materna e resultados em testes estandardizados de literacia, foram conduzidos inquéritos aos docentes e formadores de docentes sobre o trabalho feito com os programas, foi feito um estudo comparado sobre os vários normativos em vigor. Todos estes estudos foram apresentados e discutidos publicamente.

Para a elaboração do programa foram apresentadas várias versões, que foram discutidas publicamente, em seminários alargados, com uma gestão exemplar de diferentes interesses e sensibilidades científicas e com uma articulação equilibrada entre o desenvolvimento de diferentes competências.

A implementação do programa desenvolveu-se através de uma formação que envolveu cerca de 8000 professores, a quem foi concedido tempo, no período não letivo, para se reunirem e estudar. Foram produzidos guiões com exemplos de materiais didáticos, foram criadas plataformas para esclarecimento de dúvidas e locais para partilha de materiais didáticos entre professores.

– A par da criação destes programas foram desenvolvidas metas de aprendizagem, que, em articulação com o programa, determinavam desempenhos esperados com o desenvolvimento do programa em vigor.

Entretanto, mudou o Governo e soubemos que o Ministério da Educação seria implodido. Fui contactado para integrar uma equipa que elaboraria novas Metas Curriculares para o Português. Disse que não o faria, porque me custava que o Estado gastasse tempo e dinheiro a fazer o que já está feito e a substituir o que não chegou sequer a ser avaliado. O resultado é o que se conhece. As metas aprovadas, na área da Gramática, constituem um retrocesso lamentável a um delírio classificatório e, em outros domínios, cometem erros como a confusão entre testes psicolinguísticos e metas de aprendizagem, que obrigam os professores de 1.º ciclo a contar, de cronómetro na mão, quantas palavras e pseudopalavras os seus alunos leem por minuto.

Mas a sede destrutiva é imparável. Foi preciso revogar o currículo nacional, porque continha palavras proibidas. Hoje, nos corredores do Ministério da Educação é proibido falar em “competências”. O neoeduquês elegeu o termo “capacidades” e muitos são os documentos em que se deve ter usado a ferramenta search and replace do Word para fazer esta substituição. Por isto mesmo, é preciso fazer à pressa um novo Programa de Português, substituindo um documento que está em fase de apropriação pelos docentes, que foi submetido a um processo sério de escrutínio, por um documento cujo objetivo principal é estar em vigor ainda em 2015, para que, quando mudar o Governo, se possa garantir que já não há nada a fazer.

Dir-se-á e bem que é preciso rever o ensino do Português, porque os resultados são muito preocupantes. Pois é. Tenho protagonizado esse mesmo discurso. O que é lamentável é que, mais uma vez, Nuno Crato queira reescrever algo para voltar a um lugar de onde nunca se saiu, privilegiando o pior da tradição.

* In jornal "Público" do dia 9 de março de 2015. :: 09/03/2015

Sobre o autor

** João Costa (1972), doutorado em Linguística, é professor catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É, desde 2013, diretor da mesma faculdade e investigador da FCT com o projeto Crosslinguistic and Crosspopulation Approaches to the Acquisition of Dependencies. Em 1998, foi condecorado com o prémio de Investigação da Associação Portuguesa de Linguística. Tendo vários livros publicados, destacam-se: Gramática, conflitos e violações. Introdução à teoria da Optimidade (2008) e O advérbio em português europeu (2008) .

Enviar:

Ensino

Questões relativas ao ensino do português língua materna/língua estrangeira.

Que visão sobre o ensino da língua?

Mostra todosControvérsias


Temas

Acordo Ortográfico

Aprendizagem colaborativa/Tandem Learning

Controvérsias

Enino das línguas clássicas

Ensino das literaturas de língua portuguesa

Ensino de línguas estrangeiras

Exames Nacionais 2008

Exames Nacionais 2009

Jogos e passatempos

Notícias

Notícias em inglês/News in English

Novos Programas

PLE

Tecnologias da informação no ensino

Vídeos



Autores

Abílio Louro de Carvalho

Alina Villalva

Ana Martins

António Barreto

António J. Lavouras Lopes

Baptista-Bastos

Carlos Reis

Catarina Espírito Santo

Elsa Resende

Elsa Rodrigues dos Santos

Evanildo Bechara

Fernando dos Santos Neves

Helena Buescu,José Morais,Maria Regina Rocha,Violante F. Magalhães

Inês Pedrosa

João Vaz

João Costa

Jorge Miranda

Jorge Morais Barbosa

José Manuel Fernandes

Manuel António Pina

Manuel Carvalho

Maria Filomena Mónica

Maria Regina Rocha

Raquel Ribeiro

Renato Borges de Sousa

Rita Ciotta Neves

Rui Tavares

Sónia Valente Rodrigues

Susana Marta Pereira

Vários

Vasco Graça Moura

Wilton Fonseca


Mostra todos

Ciber Escola Ciber Cursos