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[O Nosso Idioma]Escritores e poetas

Perguntem aos vossos cães… * *

Vítor Bandarra**

«Falámos do seu bem-amado Sporting, do amado póquer, de jornalismos moribundos, de crónicas mal amanhadas, da língua portuguesa assassinada, de amigos comuns com mau feitio e coração grande, e de supostos amigos que agora o incensavam, Prémio Camões na biografia.» Crónica em homenagem ao  jornalista, cronista, escritor (Prémio Camões 2011), poeta, dramaturgo português Manuel António Pina (18 de novembro de 1943, Porto-19 de outubro de 2012).



Andrajoso, canito atrás, o homem acelerou o passo ao encontro do Manel, arrastando a perna cambada. Poeta da vida, da coerência e dos animais, Manuel António Pina, jornalista-cronista-escritor, quedou-se à conversa com o sem-abrigo rameloso, provavelmente agarrado à droga; Manel agarrado ao eterno charutinho. Através da vidraça do costumado restaurante portuense, babado de apetite por generoso sável, acompanhei o gesticular do Manel em paleio com o tipo da rua. O cachorro pindérico, rançoso e feio abanava a cauda, roçando as calças dos dois homens. Manel pródigo em carícias ao vira-lata, semblante fingidor de zanga séria. Finalmente, puxa de uma nota para o homem, que se arrastou até ao minimercado da esquina.

Sável na mesa, desancámos os vigaristas da política, da justiça e dos negócios, falámos bem da vida, dos amigos e dos animais, sobretudo dos gatos. Manel mal provou o sável, petiscou a açorda e bebericou dedinhos do vinho escolhido por ele. Falámos do seu bem-amado Sporting, do amado póquer, de jornalismos moribundos, de crónicas mal amanhadas, da língua portuguesa assassinada, de amigos comuns com mau feitio e coração grande, e de supostos amigos que agora o incensavam, Prémio Camões na biografia. «Chegou a hora do espanto/chegou o grande momento/em que tudo é fingimento!», previu o poeta.

O Manel morreu. Sorri de irónica amargura quando costumeiras personagens botaram escrita e discurso sobre o Manuel António Pina. Gente com quem, para orgulho meu, Manel nunca se sentaria à mesa. Nesse dia desta Primavera, dissertámos sobre políticos que lhe telefonavam a dizer que queriam "trocar impressões" com ele. Sócrates, Passos, Gaspar & Companhia vieram à conversa. De repente, Manel pediu só um minutinho e saiu ao encontro do sem-abrigo, que sopesava agora em mãos três latinhas de comida para cão. Cuidadoso, o poeta dos gatos abriu as latas e depositou-as no chão. O cãozito latiu e avançou para o pitéu. Manel puxou de outra nota e fê-la desaparecer no bolso do coçado casacão do andrajoso.

Charuto em brasa, Manel explicou-me a cena: comprava amiúde latas para o cão do amigo de esquina, a quem concedia a nota do costume. Até que voz amiga o avisou: o homem emborcava a comida do cão e gastava o dinheiro sabe-se lá onde. Armado em Zé dos Pneus, lancei ao acaso: «Ó Manel, o que é que vai ser deste Povo e deste País?» Tragada profunda do poeta: «Sei lá! Perguntem aos vossos gatos e aos vossos cães!»

* In revista do Correio da Manhã de 28 de outubro de 2012. Manteve-se a ortografia seguida pelo jornal português. :: 30/10/2012

Sobre o autor

** Vitor Bandarra (1958) é um jornalista português da TVI. Já trabalhou no Portugal Hoje, no Público, no Expresso, n’O Inimigo, entre outros lugares de destaque de imprensa. Para além de pertencer ao Conselho Fiscal do Clube dos Jornalistas português, foi premiado em 2008 com o Prémio de Jornalismo e Comunicação Victor Cunha Rego.

 

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