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[O Nosso Idioma]Fonética

Prosódia ≠ ortoépia "vs." ortofonia *

José Neves Henriques**

Vendo-se uma qualquer telenovela brasileira, do lado de cá do Atlântico, sente-se logo a diferença na fala dos atores: a) a abertura das vogais átonas pretónicas (màrido, pàrece); b) a pronúncia do e final dos proclíticos e enclíticos (desdi qui cheguei...); c) a vocalização do l velar (Brasiu); d) a palatização dos grupos ti e di (prátchica, dchinhêro); pronúncia do r forte (ajudarr, terrceira); e) o não chiamento do s e z implosivos, que são pronunciados como sibilantes (gossto, homenss). Esta última particularidade foi de cá para lá, talvez. Quem for para os lados de Pinhel também lá ouve gossto e homenss.

Estas particularidades da pronúncia brasileira não pertencem porém ao âmbito da prosódia, como muitos podem julgar. A prosódia ocupa-se de outra coisa: dos elementos extra-articulatórios dos fonemas, como sejam os fenómenos melódicos; o conjunto dos meios de articulação do discurso, como por exemplo o acento, a entoação, as pausas, a elevação e descida de tom fundamental, a energia tonal, etc. Quer dizer, a prosódia trata de factos tonais que se expressam nos sons, mas que não são propriedade dos sons, mas sim das palavras. O próprio étimo da palavra prosódia no-lo diz: vem do grego prosodía, «canto em consonância com»; e, daqui, «canto para acompanhar a lira». Também significa «acento prosódico», e, em particular, «acento tónico». E ainda tudo que serve para acentuar a fala (aspiração, acento prosódico das sílabas, apóstrofe, etc.).

Como se vê, estes são, na verdade, aspectos que se encontram para além das dimensões dos fonemas. Portanto, não pertencem à prosódia. Pertencem, sim, à ortoépia, que é a parte da ortofonia que trata da articulação perfeita dos fonemas, de acordo com a norma considerada padrão – a da gente culta. Em Portugal, são afastamento dessa norma (da ortoépia e não da prosódia), dizer-se, por exemplo, /a-cór-dos/, /nò-rò-és-te/ em vez de /a-côr-dos/, /nò-ru-és-te/ /de-cher/, /a-chen-der/ em vez de /dês-cer/, /as-cen-der/; /Ptgal/, /ptgue-ses/, como tantas vezes ouvimos, em vez de /Por-tu-gal/, /por-tu-gue-ses/. O próprio étimo de ortoépia nos esclarece:

Ortoépia (melhor seria /ortoepía/) deriva do grego orthoépeia, linguagem ou estilo correcto. Compare-se com o verbo grego da mesma família orthoepeín, falar correctamente, servir-se da palavra própria.

 

Outros textos do autor

* texto inédito, encontrado no espólio do autor. :: 17/12/2014

Sobre o autor

** José Neves Henriques (1916 - 2008), professor de Português; consultor e membro do Conselho Consultivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Antigo professor do Colégio Militar, de Lisboa; foi membro do Conselho Científico e diretor do boletim da Sociedade da Língua Portuguesa; licenciado, com tese, em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa; foi autor de várias obras de referência, entre as quais Comunicação e Língua Portuguesa e A Regra, a Língua e a Norma (Básica Editora).

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