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[O Nosso Idioma]Livros

Um livro de linguística, com pertinência social e cultural *

Carlos A. M. Gouveia**

Estruturado em quatro partes ("Língua e Cultura", "Reflexões sobre o ensino da língua", "Dos Gramáticos e das Gramáticas" e "Teoria e aplicações da fonologia"), trata-se de uma obra que vai além da sua importância e atualidade temática – assinala o autor neste texto que serviu de apresentação do livro A Língua Portuguesa: Teoria, Aplicação e Investigação, de Maria Helena Mira Mateus, ocorrido no dia do seu lançamento, a 11 de novembro de 2014, nas instalações do Instituto Camões, em Lisboa. 

[Título e subtítulos da responsabilidade editorial do Ciberdúvidas.]

 

 

 

Há duas razões para estarmos aqui hoje [dia 11/11/2014]. Em primeiro lugar, estamos aqui por causa da Maria Helena. Por amizade, por carinho, por respeito. Pela Maria Helena estaríamos aqui na mesma, se, em vez de ter publicado um livro de linguística, ela tivesse publicado um livro de biotecnologia farmacêutica ou de filatelia, assuntos sobre os quais, estou certo, a Maria Helena e a maioria de nós pouco sabem. Ou seja, estamos aqui porque fazemos parte do clube de fans da Maria Helena, de quem gostamos muito, por quem sentimos muita amizade, muito carinho e muita admiração.

Em segundo lugar, estamos aqui porque o livro que a Maria Helena acabou de publicar é um livro precisamente de linguística, um livro de nosso interesse, que tem a ver com as coisas em que alguns de trabalhamos ou sobre as quais, de uma forma ou de outra, refletimos, e às quais outros de nós, não sendo linguistas, reconhecem também, com os linguistas, atualidade temática, importância disciplinar e pertinência social e cultural.

Celebremos então a Maria Helena e a nossa admiração por ela, falando do livro que agora publica, já que é ele o motor e motivação destas minhas palavras e a razão fundamental para esta nossa reunião hoje aqui no Instituto Camões

 

Textos escritos entre 2001 a 2012

para congressos e artigos académicos

 

Intitulado A Língua Portuguesa: Teoria, Aplicação e Investigação, o livro reúne textos escritos no período de 2001 a 2012, com funcionalidades académicas muito diversas, desde textos que foram escritos para serem ouvidos em congressos e contextos afins, a textos que foram escritos para serem lidos como artigos de números especiais de revistas académicas e capítulos de livros científicos; uns e outros sobre objetos de estudo diversos.

Mas este livro não é apenas a reunião de textos que a autora foi publicando avulso. Ao avulso da edição original dos textos, a autora reage com a inclusão de um pequeno texto novo, introdutório ao volume, a que dá o título de "Apresentação", e que pretende ser um elo de ligação entre todos os textos, explicitando e explicando as relações entre eles. Estas explicações ganham ainda mais sentido, se pensarmos que todos os textos, com exceção de apenas dois deles (por razões compreensíveis), apresentam um resumo inicial que ajuda a nossa leitura dos textos e nos garante o domínio de uma certa metadiscursividade sobre os mesmos.

Por outro lado, e ainda como característica especifica do livro, note-se que à diversidade dos objetos de estudo dos textos que produziu ao longo de cerca de 10 anos, a autora contrapõe a unidade da organização e apresentação dos mesmos no volume. Não se trata apenas da unidade tripartida que o título do volume manifesta – A Língua Portuguesa: Teoria, Aplicação e Investigação –, que enfatiza a unidade complexa do objeto de estudo – a língua portuguesa – por via de diferentes perspetivas metodológicas de o trabalhar, trata-se ainda da unidade temática que a organização em quatro partes estrutura, seguindo temas como o ensino das línguas, a relação entre língua e cultura, a descrição das línguas, em particular do sistema fonológico, e o trabalho e os produtos de alguns linguistas sobre esses e outros temas.

Tais temas encontram expressão numa organização que começa com uma primeira parte intitulada “Língua e Cultura”, com dois textos: “Língua e cultura: onde estão as marcas da nossa identificação?” e “Difusão da Língua Portuguesa no Mundo”; a que se segue a Parte II, intitulada “Reflexões sobre o ensino da língua”, também com dois textos: “Investigação e ensino da língua materna na perspetiva
 do desenvolvimento” e “Le Portugais en contexte multilingue et multiculturel”.

As Partes III e IV, intituladas respetivamente, “Dos Gramáticos e das Gramáticas” e “Teoria e aplicações da fonologia”, têm quatro textos cada uma. No caso da parte III, temos os textos “Fernão de Oliveira: um renascentista aventuroso
 e um gramático sensível”, “A Gramática da Língua Portuguesa e seus antepassados”, “Saudação a Rosa Virgínia Mattos e Silva” e “Homenagem a Isabel Hub Faria – Aprender a vida
 com a Isabel”. Na parte IV, temos os textos “A argumentação teórica e empírica na depreensão
 das unidades fonológicas”, “O espaço da fonologia nas descrições gramaticais”, “Sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa” e “A Harmonização Vocálica e o Abaixamento de vogais 
nos Verbos do Português”.

 

A língua  como factor de identificação

 

Não é de admirar que a maioria destes textos tenham sido apresentações públicas, conferências apresentadas no Brasil, país que lhe é tão querido e que tão bem a homenageia, convidando-a, amando-a, respeitando o seu saber e paixão, a sua vontade de continuar a trabalhar, a investigar, a escrever, apesar do «abrandamento no aprofundamento da investigação especializada» (palavras suas), a que a sua situação de aposentada a remeteu.

Mas este abrandamento no aprofundamento da investigação especializada, a que a autora se refere, que poderíamos ver como negativo, ganha pontos e público leitor, pois é ele que faz com que sejam apenas os quatro textos da última parte do livro, sobre “Teoria e aplicações da fonologia”, a requerem do leitor um conhecimento especializado. Todos os outros textos convivem muito bem com leituras e leitores menos enquadrados pelo fundamentos da investigação fundamental que se vai fazendo em fonologia e revelam incursões por domínios de investigação mais aplicados, ou, como eu gosto de dizer, mais aplicáveis. Se aceitarmos que a relação entre a engenharia e a física é uma relação de aplicação, sendo a engenharia física aplicada, eu diria, fazendo um paralelismo da linguística com a física, que este livro tem mais de engenharia do que de física.

Aliás, nesse sentido, de entre os doze textos contidos no volume destaco os quatro primeiros, não só porque de um ponto de vista dos meus interesses pessoais de investigação são os que mais têm a ver comigo, mas sobretudo porque são os que mais refletem esta recente diversificação de interesses da sua autora, agora muito mais dada, como disse, a incursões pela linguística aplicada e pelo estudo da diversidade linguística e cultural e das relações entre ambas. Nos termos em que normalmente refiro estas realidades, pensadas numa oposição dicotómica entre sistema e uso, diria que estes textos refletem a inflexão da Maria Helena pelo estudo do uso, mais do que do sistema, como fez durante toda a sua carreira. Nesse sentido, e como exemplo demonstrativo dessa inflexão e interesse, cito o fragmento final do texto “Língua e cultura: onde estão as marcas da nossa identidade”, que abre o livro (p. 29):

«Em resumo, a língua materna de cada indivíduo contribui poderosamente para se reconhecer a si próprio e para ser reconhecido pelo outro. É na realidade um fator de identificação cultural, mas no uso, e pelo uso, que dela faz o indivíduo e não apenas por pertencer a uma das várias comunidades que a utilizam como materna.

Para terminar, passeemos um pouco em torno da frase de Fernando Pessoa mil vezes repetida e glosada: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Será que esse homem, que falava uma língua dispersa por vários continentes, preferia tal dispersão à envolvência material de físicas fronteiras limitadoras? Ou será que, dividido o poeta entre várias pátrias que podia chamar suas mas a que se não sentia visceralmente ligado, só na língua que falava encontrava a sua identificação? Talvez por isso pôde explodir, dentro de si mesmo, numa constelação de personagens libertas da obrigação de viver. Porque a linguagem humana lhe ofereceu a possibilidade de não pertencer a nenhuma pátria

  

A iniciação de uma nova trajetória de investigação

 

Esta mudança de rumo da Maria Helena para questões mais ligadas ao âmbito da linguística aplicada, reorientando o seu trabalho para cartografias mais afastadas do núcleo dos seus interesses tradicionais revela, por um lado, uma enorme liberdade de espírito, que só os grandes pensadores possuem, e por outro, uma capacidade de inovação e de transformação a que apenas pessoas libertas de qualquer tipo de amarras podem aspirar. É, nesse sentido, de louvar e de admirar na Maria Helena que tenha feito do seu período pós-jubilação não o ocaso da sua carreira, mas o início de uma outra carreira, ou pelo menos a iniciação de uma nova trajetória de investigação.

Se partirmos para estes doze textos que compõem o livro com um outro tipo de abordagem, três deles não podem deixar de ser notados, na terceira parte do livro, intitulada “Dos Gramáticos e das gramáticas”, muito embora os três sejam de motivação muito diversa. Refiro-me ao texto “A Gramática da Língua Portuguesa e seus antepassados”, e aos dois textos de homenagem a Rosa Virgínia Mattos e Silva, linguista brasileira, um, e à nossa Isabel Hub Faria, o outro. Na leitura do primeiro desses três textos, sobre as sucessivas edições da Gramática da Língua Portuguesa e as motivações para a sua publicação, não podemos deixar de admirar o modo como a sua autora concilia técnica expositiva de conceitos e discurso científico com técnica narrativa. Atrevo-me a referir, a título de exemplo, a narrativa sobre as cartas de parabéns que as autoras da gramática receberam aquando da sua publicação, e subsequente descrição, rematada com o seguinte parágrafo:

«Ao olhar para estas cartas, guardadas durante 30 anos, penso com alguma saudade nesse tempo em que as mensagens voavam em folhas de papel que se podiam conservar e, de quando em vez, tocar carinhosamente».

Dentro desta lógica de hibridismo de trabalho narrativo sobre conceitos e discurso científico, é de realçar o título da sexta parte deste texto, curiosamente intitulado “A Gramática da Língua Portuguesa na sua intimidade”, cujo conteúdo poderia perfeitamente ser mais uma pequena história sobre a criação da obra, mas que, ao invés, se centra na explicitação da sua estrutura, como transparece do excerto que passo a citar, que abre essa sexta parte, em que pontuam termos como «contei», «história» e «intimidade», por um lado, mas também, por outro lado, termos como «objeto de análise», «dados da realidade» ou «área da ciência»:

«O que contei até agora foi a história externa da obra. Nada disse da sua intimidade, não falei da sua estrutura, das opções feitas no desenvolvimento das diferentes partes, da forma como construímos o nosso objeto de análise a partir dos dados da realidade, selecionados e conceptualizados sendo nossa convicção que trabalhámos a gramática como uma área da ciência.»

 

Três narrativas de vida(s)

 

Ainda dentro deste mesmo princípio, saliente-se a qualidade narrativa e quase novelesca do título do texto sobre Fernão de Oliveira e a sua Gramática da Língua Portuguesa: «Fernão de Oliveira: um renascentista aventuroso
 e um gramático sensível».

Da leitura dos outros dois textos a que me referi, de homenagem a duas colegas, uma coisa salta à vista: não há quem, como a Maria Helena, escreva textos de homenagem tão adequados ao seu propósito, tão reveladores da história e da vida dos homenageados e ao mesmo tempo tão sérios de respeito e admiração e tão, tão bonitos. Para quem como eu se encanta com narrativas de vida, passear por estes dois textos quase que equivale a usufruir do prazer que sinto ao ler um romance. E no caso destes textos, as duas linguistas neles homenageadas são transformadas em personagens de acontecimentos, peripécias e de percursos de vida, denotadores, como a homenageadora lhe chama, da «sua forma de estar na vida» (p. 114), a propósito de Rosa Virgínia, e que descreve com aforismos como «Essa é uma das suas marcas, uma das que mais fazem vibrar os seus amigos», a propósito de Isabel Faria (pp. 130-1). Leio estes textos e não posso deixar de recordar almoços, lanches e longas conversas que tive com a Maria Helena e de pensar no prazer que sinto em ouvi-la discorrer sobre «o [seu] tempo», «naquela altura», «quando me doutorei», «quando fizemos a gramática», «na ditadura», «após a revolução».

Para terminar com esta tónica, deixem-me apenas dizer que estou certo de que daqui a uns anos a Maria Helena contará umas quantas histórias que começarão com «quando publiquei o livro A Língua Portuguesa: Teoria, Aplicação e Investigação»...

Pela minha parte, digo aqui, hoje, com a certeza dos factos e do que é óbvio, que fiquei muito contente por ter sido convidado a apresentar o livro, pela amizade e admiração que sinto pela Maria Helena, mas, e sobretudo, porque este é um livro que além de merecer ser manuseado, acariciado, pede, acima de tudo, para ser discutido, falado. E, para isso, apenas basta lê-lo.

Parabéns, Maria Helena.

* texto de apresentação do livro A Língua Portuguesa: Teoria, Aplicação e Investigação, de Maria Helena Mira Mateus, que decorreu no dia do seu lançamento, a 11 de novembro de 2014, nas instalações do Instituto Camões, em Lisboa. Título e subtítulos colocados pelo Ciberdúvidas. :: 26/12/2014

Sobre o autor

** Carlos A. M. Gouveia é um linguista português, Professor Agregado da Faculdade de Letras de Lisboa e investigador no Instituto de Linguística Teórica e Computacional. Coautor do livro Introdução à Linguística Geral e Portuguesa.

 

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