ciberduvidas Ter dúvidas é saber. Não hesite em nos enviar as suas perguntas. Os nossos especialistas e consultores responder-lhe-ão o mais depressa possível.

[O Nosso Idioma]O português em Timor

Português, tétum ou tetuguês? *

Paulo Moura**

Paulo Moura

O problema linguístico é fundamental em Timor, porque está em questão a própria identidade do novo país. Deverá ser adoptado o português, o tétum, o bahasa Indonésia ou o inglês? A importância do português parece consensual, mas onde levará a política de ensino que está a ser seguida?

Francisca Libânia Gama, 19 anos, conversa com o seu colega Cornélius Barreto, 21 anos, à porta da Universidade de Díli. Estão sentados no chão e falam em tétum, a língua da maior parte da população timorense. «Não é bem tétum... é uma mistura com bahasa Indonésia», admite Francisca. «Com muitas palavras em português», acrescenta Cornélius. Francisca: «E algumas em inglês...» Riem-se. Para eles, isto não constitui um problema. Cresceram assim. Mas estudam Ciência Agrária na Universidade Portuguesa. «Nós somos timorenses, mas queremos estudar e ter uma carreira», explica Francisca. «Por isso aprendemos português. É a língua oficial e o veículo para prosseguir os estudos», acrescenta, antes de admitir que tenciona continuar os estudos na Austrália. «É a nação vizinha e tem um ensino muito bom. Além disso, o meu tio vive lá.»

Francisca e Cornélius pertencem a uma geração que não fala português. Os 24 anos da ocupação indonésia tornaram o bahasa a língua do ensino e da administração. O português foi banido, e a forma de resistir à total aculturação foi desenvolver a mais disseminada das línguas locais, o tétum. Fê-lo, principalmente, a Igreja Católica, que assumiu o protagonismo da resistência cultural e simbólica.

Chegada a independência, há uma geração (todas as pessoas com menos de 30 anos, o que constitui a esmagadora maioria da população) que não fala português. Aprendeu bahasa Indonésia e inglês como segunda língua e fala tétum em casa, além de alguma outra língua timorense, como o fataluco ou o baiqueno. É a chamada geração "Tim-Tim", do nome Timor-Timur, que os indonésios davam à sua 27.ª província. Muitos estudaram na Indonésia ou na Austrália, e é difícil explicar-lhes, hoje, a importância do português. Pior ainda, como vêem que as elites políticas, privilegiadas, falam português, e como lhes é vedado o acesso aos empregos na administração pública, por não falarem a língua agora oficial, estes jovens criaram alguma hostilidade em relação a Portugal e à língua portuguesa.

A actual classe política parece não ter dúvidas quanto à opção de adoptar o português como língua oficial, mas a verdade é que o debate está aberto, nos vários sectores da sociedade. Deve adoptar-se, como actualmente, o português como língua oficial, mantendo o tétum, o bahasa e o inglês como línguas nacionais? Ou deve o tétum ser a língua oficial, passando o inglês para segunda língua e esquecendo o português?

«O português não é a língua da unidade, mas é a língua da identidade», diz Mari Alkatiri, o líder da Fretilin e ex-primeiro-ministro. Por isso – e não por ser ele próprio, que viveu em Moçambique durante a ocupação indonésia, falante de português – decidiu adoptá-lo como língua oficial de Timor-Leste. Sem o português, a identidade do país rapidamente se dissolveria nas culturas circundantes, indonésia e australiana. «Se somos um país pequeno, ainda por cima sem recursos, porque não investimos em ser diferentes?», diz Alkatiri.

José Ramos-Horta, que é visto como mais próximo da Austrália e mais realista quanto às possibilidades de manter uma relação estreita com o longínquo Portugal, também não tem dúvidas quanto à importância do português. «No futuro, as relações com Portugal devem ser mais orientadas para a educação e a formação. Não podemos sobrecarregar Portugal com outros pedidos. É um país amigo, mas não o podemos colocar nessa situação difícil. Temos de diversificar.» E explica: «A língua portuguesa é fundamental para a nossa identidade. O próprio tétum, para se desenvolver, precisa do português. Alimenta-se dele.»

O tétum é uma língua pouco desenvolvida. Não tem uma tradição escrita e carece de vocabulário e complexidade gramatical. Para se tornar num veículo literário e de ensino, apto para os negócios e para a política, terá de se aperfeiçoar, e, para isso, precisa de regras e de outra ou outras línguas.

Geoffrey Hull, linguista australiano a quem as autoridades de Timor pediram um estudo e um parecer sobre o futuro do tétum, estabeleceu regras ortográficas e de evolução para a língua timorense. As palavras que não existem devem ser roubadas ao português, concluiu o filólogo. «O mais importante símbolo nacional é sem dúvida a língua», disse Hull ao Congresso timorense. E explicou que, se se desenvolver recorrendo ao inglês ou ao bahasa Indonésia, o tétum acabará por desaparecer, engolido por aquelas línguas, que têm muito maior força na região. Desenvolvendo-se com o português, o tétum assumirá uma especificidade que o tornará irredutível, e um símbolo de identidade.

Para a construção desta nova língua, porque é disso que se trata, é necessário pegar na sua versão mais aberta e mais plástica, o tétum-praça, também chamado tétum-Díli e, agora,tétum-nacional, e fazê-la evoluir em conjunto com o português. O tétum-nacional é a versão que já inclui muitas palavras em português e noutras línguas. Seria necessário estabelecer regras claras para a sua transformação, como, por exemplo, a de que qualquer palavra inexistente terá de ser adaptada do português, e não do inglês ou do bahasa. Ora isto só é possível se o português for também falado pela generalidade das pessoas, o que, actualmente, não acontece.

Timor, em colaboração com Portugal, criou um Projecto de Reintrodução da Língua Portuguesa. Cerca de 180 professores portugueses estão em Timor para ensinarem a língua. Espalhados por todos os distritos, vivendo muitas vezes em condições difíceis, leccionam não directamente os alunos das escolas, mas os professores timorenses.

Até 2002, ensinavam directamente nas escolas, mas isso, explica o coordenador do Projecto de Reintrodução da Língua Portuguesa, Filipe Silva, traduzia-se, para os alunos, em apenas 30 minutos por dia de português: «O resto das aulas eram em tétum ou bahasa. Não era rentável.»

Agora, os professores dão apenas formação, a professores e funcionários públicos. Para os professores timorenses, há quatro níveis de aprendizagem, e bacharelato. Têm seis horas de aulas por semana, em horário pós-laboral. O objectivo é que passem a ensinar português aos seus próprios alunos. Mas há dúvidas sobre os resultados desta estratégia. «A maior parte desses formandos não fala português», diz Adérito Guterres, vice-director do Instituto Nacional de Linguística, que foi criado para desenvolver o tétum. «Falam os mais velhos, que ainda estudaram no período português e são, na sua maioria, professores primários. Os do secundário formaram-se no período indonésio e falam bahasa e tétum.»

Com duas aulas de português por semana, depois de um dia de trabalho, dificilmente esses jovens professores timorenses aprenderão o português suficiente para que o possam ensinar aos seus alunos.

Além disso, a política governamental agressiva para aprendizagem do português gera alguma hostilidade em relação à nova língua, em cujos cursos se inscrevem contrariados, explica ainda Guterres. «A atitude de alguma arrogância dos professores portugueses também não ajuda. Qualquer australiano, ou mesmo brasileiro, que chega a Timor, a primeira coisa que faz é aprender tétum. Os portugueses raramente o fazem. Isso, por um lado, dificulta o ensino a formandos que não falam português. Por outro lado, é visto como uma falta de respeito pela cultura timorense.»

Nas suas recomendações, Geoffrey Hull tinha insistido nesse ponto. Lembrou que, no período português, «a administração colonial não deu qualquer valor ao tétum nem aos outros vernáculos. O português era o único veículo de instrução escolar, e as matérias leccionadas eram sempre lusocêntricas, ignorando por completo a cultura e a história timorenses. (...) Este programa de assimilação portuguesa pode-se denominar "modelo cultural salazarista"». E concluiu: «É oportuno recomendar a todos os indivíduos que venham aTimor como professores de português que façam o esforço de aprender o tétum. Tal gesto de respeito pela língua partilhada pela maioria da população iria comprovar a todos que o trabalho de restauração da língua portuguesa em Timor-Leste não tem qualquer agenda neocolonialista.»

No entanto,a maioria dos professores portugueses não aprende tétum. É o caso de Fátima Marques, 40 anos, há cinco a ensinar em Timor. «Nunca senti que fosse necessário, porque a maioria das pessoas com quem tenho de contactar fala português.» Cláudia Taveira, 28 anos, em Timor há seis, acrescenta: «Mesmo quando falam tétum, eles usam tantas palavras em português, que se entende tudo.» Almerinda dos Santos, 37 anos, professora em Timor há seis, explica: «O tétum é, praticamente, português. Eles usam cada vez mais palavras portuguesas. Não é necessário aprender tétum.» Além, disso, segundo Fátima Marques, o ensino deve fazer-se totalmente em português, sem recurso ao tétum.

Com experiência de ensino em zonas remotas do território, as professoras falam no entanto das dificuldades que têm em ensinar. Não há livros suficientes para todos os formandos. Os que há ficam na escola, apenas para consulta. Muitos dos formandos são refugiados, vivem em tendas, não têm luz eléctrica nem alimentação adequada. Não falam português nem têm noções de pedagogia. Aprenderam no sistema indonésio, que privilegia a memorização. «Os professores timorenses fazem assim: põem os alunos a fazer cópias e vão fumar um cigarro», conta Almerinda dos Santos, que, na região de Los Palos, era obrigada a dar aulas debaixo de uma árvore.

Os dirigentes timorenses, mesmo os mais ligados à «opção portuguesa», sabem que é necessária uma perspectiva mais conciliadora. «As pessoas que estudaram nas universidades indonésias têm uma boa formação e temos de saber usar as suas capacidades», diz o candidato presidencial da Fretilin, Francisco Guterres Lu Olo. «Só terão de transpor os seus conhecimentos para alíngua portuguesa. E acredito que dentro de uns cinco anos toda a gente saberá falar português.»

Mas que português e que tétum se falarão dentro de cinco anos é difícil prever. José Estêvão Soares, professor de tétum em Díli, está convencido de que o tétum é uma causa perdida. «O tétum-nacional terá de ter tanto de português e será tão difícil de aprender para um timorense, que é preferível assumir que todos terão de aprender português», disse. «O português, e não o tétum, deveria ser a nossa língua nacional. Mas para isso seria necessário em esforço em grande escala, para ensinar a língua.»

Já Ramos-Horta pensa que a questão é inútil porque o que vai acontecer é a fusão das duas línguas. O português vai vencer em Timor, mas os portugueses terão de compreender que será uma língua muito diferente da que falam. Será um português timorense. O "tetuguês".

Paulo Moura

Público

* in Público de 7 de Maio de 2007 :: 07/05/2007

Sobre o autor

** Paulo Moura (Porto, 1959) é um jornalista português, professor na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Colabora com o jornal Público e já recebeu importantes prémios de jornalismo, o mais recente da UNESCO com a reportagem A Revolução virá do campo (2013). Da sua obra literária, destacam-se: Passaporte para o céu (2006), O fim das miragens (2007) e Longe do mar (2014).

Enviar:

O Nosso Idioma

Textos de investigação/reflexão sobre língua portuguesa.

Português, tétum ou tetuguês?

Mostra todosO português em Timor


Temas

A arte do uso da linguagem

A língua portuguesa vista por estrangeiros

Acordo Ortográfico

Aportuguesamento de termos estrangeiros

Concordância

Dicionários

Ensino

Escritores e poetas

Estrangeirismos

Evolução semântica

Expressões idiomáticas, frases feitas

Fonética

Género

Gerundismo

Gírias

História da Língua

Histórias de palavras

Interpretação dos provérbios

Léxico

Linguística

Literatura

Livros

Neologismos

O português do Brasil

O português em Angola

O português em Moçambique

O português em Timor

O português na CPLP

O português nos 8 países da CPLP

O português, língua científica

O uso e abuso da língua inglesa

Onomástica

Ortofonia

Pontuação

Português do Brasil vs Português europeu

Português, língua técnica e científica

Pragmática

Regionalismos

Tabuísmos

tecnologia

toponímia

Unidade e diversidade da língua

Uso e norma

Uso inadequado do léxico na política

Uso incorreto do léxico na comunicação social

Verbos

Vídeos



Autores

Abel Barros Baptista

Agostinho de Campos

Alberto Villas

Alex Sander Alcântara

Alfredo Barroso

Álvaro Garcia Fernandes

Ana Goulão

Ana Martins

Ana Sousa Martins

Anselmo Borges

António Costa Santos

António Dinis da Cruz e Silva

António Pinho Vargas

António Valdemar

António Vieira

Appio Sottomayor

Arnaldo Niskier

Augusto Soares da Silva

Augusto Soares da Silva; Marlene Danaia Duarte

Carlos A. M. Gouveia

Carlos Alberto Faraco

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Eduardo Drummond

Carlos Reis

Carlos Rocha

Carolina Reis

Cecília Meireles

Chico Viana

Clara Ferreira Alves

Daniela Cordeiro

Desidério Murcho

Diogo Pires Aurélio

Duda Guennes

D´ Silvas Filho

Edgard Murano

Edno Pimentel

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Prado Coelho

Escola Superior de Educação de Lisboa

Eugénio de Andrade

Fernando Braga

Fernando Sabino

Fernando Venâncio

Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca

Ferreira da Rosa

Ferreira Fernandes

Ferreira Gullar

Filipe Luís

Francicarlos Diniz

Francisco Belard

Gonçalo M. Tavares

Gonçalo Neves

Henrique Monteiro

Ida Rebelo

Isabel Casanova

Isabel Coutinho

Isabel Leal

Isabelle Oliveira

João Bonifácio

João Cabral de Melo Neto

João de Melo

João Paulo Coelho de S. Rodrigues

João Paulo Cotrim

João Ubaldo Ribeiro

Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Vieira

Joel Neto

Jorge Daupiás

Jorge Miranda

José Eduardo Agualusa

José Luis Peixoto

José Mário Costa

José Mário Costa,João Matias

José Neves Henriques

José Paulo Cavalcanti Filho

José Pedro Ferreira

José Saramago

José Tolentino Mendonça

Luciano Eduardo de Oliveira

Luís Campos e Cunha

Luís Carlos Patraquim

Luís Fernando Veríssimo

Luís Francisco Rebelo

Manuel Alegre

Manuel Bandeira

Manuel Gonçalves da Silva

Manuel Matos Monteiro

Manuel Rodrigues Lapa

Manuel Rui

Margarita Correia

Maria Helena Mira Mateus

Maria Lúcia Lepecki

Maria Regina Rocha

Mário Bettencourt Resendes

Mário de Carvalho

Mário de Carvalho

Mário Ramires

Mário Vieira de Carvalho

Markus Schmid

Marta Avancini

Marta Martins Silva

Mia Couto

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Faria de Bastos

Miguel Gaspar

Nelly Carvalho

Nuno Crato

Nuno Júdice

Nuno Pacheco

Olavo Bilac

Padre António Vieira

Pasquale Cipro Neto

Paulo Afonso Grisolli

Paulo Araújo

Paulo J. S. Barata

Paulo José Miranda

Paulo Moura

Paulo Pisco

Pedro Mexia

Renato Epifânio

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Nabais

Rita Pimenta

Robert Macpherson

Rodrigues Lobo

Rui Araújo

Sandra Duarte Tavares

Sara Leite

Sérgio Rodrigues

Sírio Possenti

Susana Venceslau,Gabriela Chagas

Teixeira de Pascoaes

Telmo Verdelho

Ursulino Leão

Vários

Vasco Barreto

Vasco Graça Moura

Vasco Pulido Valente

Virgílio Azevedo

Vital Moreira

Vítor Bandarra

Wilton Fonseca


Mostra todos

Ciber Escola Ciber Cursos