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[O Nosso Idioma]Regionalismos

Xurdir *

Rita Pimenta**

"Xurdir" esteve entre as dez candidatas a Palavra do Ano 2014, o passatempo da iniciativa da Porto Editora. O significado deste tão pouco conhecido verbo intransitivo, um regionalismo transmontano com equivalência no galego «lutar pela vida», ou, em linguagem mais coloquial, «fazer pela vida» –, e como ele ganhou a notoriedade atual, no texto que a seguir se transcreve do jornal "Público" de 02/12/2014, com a devida vénia à autora.

 

 

Como é que xurdir foi parar à lista da Porto Editora, a promotora desta escolha anual? Pela mão do profissional de palavras cruzadas (há 25 anos) Paulo Freixinho e com a ajuda das redes sociais. No início do ano, criou uma página no Facebook e criou a comunidade "Xurdir para palavra de 2014". Escreveu-a em pedras, na areia da praia, em T-shirts, fotografou-a e usou-a em vários dos passatempos que assina.

«Adoptei-a. É uma palavra mágica», disse ao PÚBLICO [no] dia em que se surpreendeu com a sua entrada na lista das dez candidatas. Afirma que criou a página «em jeito de brincadeira», mas sente que, «agora, a coisa ficou séria».

Tropeçou nela em 2009. «Estava eu a xurdir, alimentando a minha base de dados para as palavras cruzadas, quando a encontrei», conta divertido. E remete-nos para o post que escreveu na sua página pessoal no Facebook, em Setembro daquele ano.» Por vezes ‘tropeço’ em curiosas palavras com significados inesperados, é o caso desta: xurdir. Esta curiosa palavra, apesar de não ser das mais bonitas, foneticamente falando, tem um significado muito interessante e actual... xurdir significa: lutar pela vida... É portanto uma palavra que merece todo o meu ‘carinho’ e bastante estimulante... Xurdir é também sinónimo de mourejar: trabalhar sem descanso; fazer pela vida... ;-)»

A pertinência da palavra manteve-se até 2014 e os critérios que norteiam a escolha da lista anual foram cumpridos, já que a selecção resulta «do trabalho permanente de acompanhamento e análise da realidade da língua portuguesa feito pela Porto Editora, com base em critérios de frequência de uso e de relevância assumida quer através dos meios de comunicação social e das redes sociais, quer da utilização dos dicionários da Porto Editora nas suas versões online e mobile».

Não terá sido apenas Paulo Freixinho a adoptar o verbo "xurdir", os 431 “gostos” da página por ele criada terão dado uma ajuda, mas certamente não seriam suficientes para entrar na lista das palavras elegíveis. «Agora, até acho possível que seja palavra do ano. É melhor que ‘selfie, que já está ultrapassada, ou que 'gamificação', que nem os praticantes de videojogos usam», diz, despedindo-se do PÚBLICO. Tinha de ir ensaiar com os Bon Sauvage, a sua banda: «Também é fazer pela vida.»

Palavra de uso frequente em Trás-os-Montes, “xurdir” tem no galego um vocábulo equivalente, "jurdir", já registado em 1876 no Diccionario Gallego (Juan Cuveiro Piñol, Barcelona): «Adelantar en la labor y no detenerse hasta acabar lo empezado.» Xurdamos, então. Até ao fim e de forma lícita.

 N. E. - A grafia atual da forma galega é xurdir, e não jurdir. Com efeito, o Dicionário da Real Academia Galega (que segue as Normas Ortográficas e Morfológicas do Idioma Galego de 2003)  regista xurdir em aceções semelhantes às atribuídas ao verbo português surgir. O Dicionário Eletrónico Estraviz (que adota os critérios da ortografia portuguesa) acolhe igualmente xurdir não só como o mesmo que surgir, mas também noutras aceções, incluindo uma que é muito semelhante à atribuída ao regionalismo trasmontano xurdir: «trabalhar sem descanso; afanar-se»; «urdir; preparar um plano»; «inventar, criar, ordenar»; «repor-se totalmente de uma doença». Quanto à forma jurdir, trata-se de uma variante gráfica de meados do século XIX, época em que se davam os primeiros passos para a recuperação do galego e se procurava fixar o seu uso escrito (ver Dicionário de Dicionários – Corpus Lexicográfico da Lingua Galega).

Outros textos da autora

* in jornal "Público" de 2 de dezembro de 2014, com o título "Não sabe o que é 'xurdir'? Ai sabe, sabe”. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico, seguida por este jornal português. :: 26/12/2014

Sobre a autora

** Rita Pimenta é uma jornalista portuguesa, copidesque do Público, autora do blogue Letra Pequena.

 

 

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