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[O Nosso Idioma]Tabuísmos

O palavrão na selva digital *

Clara Ferreira Alves**

Crónica da autoria da jornalista Clara Ferreira Alves, publicada no semanário português Expresso em 3/4/2015, sobre o uso do calão e dos seus eufemismos dentro e fora da «selva digital», sob o título "Com reticências".

 

 

Há um bar no aeroporto de Heathrow invadido por portugueses. Não falo dos clientes. Os clientes são aquela mistura internacional de bebedores de cerveja com apreciadores de "vinhos do mundo". O bar anuncia em cartaz Vinhos do Mundo. Quantos vinhos do mundo têm a copo? O barman, por singularidade ou promoção não é português, diz que o único vinho do mundo a copo é do Chile. Ora se o mundo dos vinhos a copo é apertado, o mundo dos criados de mesa é vasto e de várias nacionalidades. Muitos portugueses e muito jovens. Emigrantes. Os de primeira geração, os que saíram da zona de conforto para servir umas cervejas com salsichas e puré de batata ou um full english breakfast all day, ou os de última geração. Os de última geração são descendentes das sucessivas primeiras gerações que para não passarem fome tiveram de sair da zona de conforto. Sair da nossa zona de conforto é o que fazemos com competência.

Os portugueses cirandavam a alta velocidade, pondo e tirando bandejas, pondo e tirando contas, limpando os destroços das mesas, retirando pratos e talheres, varrendo o soalho. Tinham aventais. E uma velocidade supersónica a desmentir a reputação calaceira. Calvinistas e protestantes vários bebiam cerveja distraidamente nos bancos altos e cadeiras baixas, a gente de Lutero servida pelos papistas. É a vida. E eu, acariciando o copo gelado de vinho chileno, parte da minha receita de álcool com sedativo para entrar num avião sem imaginar que o avião vai cair e sem entrar em taquicardia ao ouvir os motores com a sensação de que vão parar no minuto seguinte. Se há pilotos doidos, ou "perturbados", há muitos mais passageiros doidos que têm medo de andar de avião e que à luz do que acontece talvez nem sejam assim tão doidos.

 

No domínio da subliteratura da web

 

O bar, como todo o bar de aeroporto, conhecido como sports bar na gíria, está cheio de gente desta, a que bebe antes de voar. E dos que bebem durante e depois. No ambiente pesado, com o ruído de fundo do futebol americano nos ecrãs, ou do râguebi ou outra atividade leve, a cegarrega dos portugueses tinha graça. Parecia um baile. Alguns têm sotaque, não percebo se um sotaque cerrado das ilhas se um português tingido de pidgin. Uns falam português e inglês ao mesmo tempo. O que tinha mais graça é que quando falavam português saía palavrão no meio. Oh, pá, vai para o car...lho ! O filho da p...ta, ou, expansivamente, o filho da p...ta do car...lho! F...da-se! Etc. A frase mais usada era Vai para o car...lho, f...da-se! Frase que costuma ser dita com graciosidade para as bandas do Porto. E aqui, como se vê, tenho de colocar reticências. É de bom tom nos jornais colocar reticências. Não se escreve filho da puta a não ser que se cite Gil Vicente. O pior é que nos escritos internéticos, onde a multiplicidade e a disputa da atenção levam os (i)letrados do digital a puxar para título da prosa uma palavra que dê nas vistas, o protocolo continua a ser seguido exceto nas caixas de comentários que pertencem à subcultura do digital. Ninguém ousa escrever como um reles comentador de pé de página. Ou puxar para título o vernáculo. Imagine-se o título Fulano f...deu-se! E imagine-se que fulano é um alto funcionário da nação. Não dá, não pode ser. É rudeza, é indignidade. Daí que os truques para chamar a atenção para a prosa através do título, garantindo os diques que geram a contemporânea criatividade, legibilidade e empregabilidade, descaiam para um segundo plano mais suave e cheio de tibiezas. E o plano da nuance, como dizem os franceses e os cabeleireiros. E nascem, nos títulos, a torto e a direito, as palavras 'mamas' e 'pénis'. Farto-me de ver mamas nos títulos, mais do que pénis, embora pénis seja um grito de atenção. Ninguém diz estas palavras na vida real, entraram no domínio abstrato da subliteratura da web. No bar do aeroporto ninguém verbalizará: Vai para o pénis! Ou: és um filho das mamas! O pénis pode ser soletrado sem reticências. As mamas também. Chamam a atenção com garbo, como quem diz, eu sou muito sincero e sem subtilezas. Sou rudimentar mas não sou rude. E insinuam: preciso muito desta palavra para garantir diques no meu texto ou sou despedido da selva digital. Há outras palavras com poder: sexy, gay, homossexual, travesti, ladrão, assassino, nazi, pedófilo, marxista, decapitação. Etc. A decapitação é um acrescento. Ora o que proponho é simples: converter a selva digital com assinatura num bar de aeroporto regido por portugueses desconfortáveis. Proponho a entrada de honra do palavrão no léxico dos colunistas para dar nas vistas. Exemplo: As mamas f...didas da marxista sexy. Ou: A favor da lei da decapitação do car...lho para pedófilo gay. Clique garantido. E o palavrão serve para mais. O bar do aeroporto em vez de Vinhos do Mundo anunciaria Vinhos do Car...lho. Com reticências.

* Título e subtítulo da responsabilidade do Ciberdúvidas, nesta crónica publicada na revista do semanário "Expresso" de 3 de abril de 2015, com o título original "Com reticências". :: 06/04/2015

Sobre a autora

** Clara Ferreira Alvesjornalista e escritora portuguesa, é licenciada em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Integrou a redação de A Tarde, do Correio da Manhã e do Jornal de Letras. Foi crítica literária, editora e redatora principal do Expresso. Publicou crónicas na Única, na Máxima, no Diário Digital e colaborou na TSF. IUnntegra o painel de comentadores residentes do programa Eixo do Mal, na SIC Notícias.

 

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