[O Nosso Idioma] - O português em Angola

«Apenas só disse isso» *

Edno Pimentel**

Dois advérbios que, quando juntos, tem um efeito redundante um uso frequente na coloquialidade do português em Angola e com um deles, o "só", adquiri o outro valor semântico nos usos português em Angola como se regista nesta crónica do professor e jornalista Edno Pimentel, publicada no semanário luandense Nova Gazeta de 4 de junho de 2015.

 

 

Foi isso que ouvi: «Apenas só disse que não concordo com isso. Não falei mais nada nem de ninguém», disse Joveth, triste, desanimado e rabugento com os amigos que o acusavam de «mais uma fofoca».

Mas conseguiu. De facto, após dias de ‘investigação’, Veneno e Falanga, ‘bradas’1 há mais de 10 anos, sentiram-se traídos com a chegada de um novo amigo na vida de Joveth. E quem disse que um Fabrício romperia os alicerces de uma década de cumplicidade, de ‘dimbinza’2 e vintes3 sucessivos das noites mal ou não dormidas por causa das provas de ‘Angola e Cuba’? Ninguém.

Ninguém viveu, ou sequer passou, por uma das experiências por que o trio ‘JVF’, que na época estava entre os 16 e 18 anos e hoje todos casados, com filhos.

Não consegui perceber o que de facto se passou, mas tive o cuidado e a ousadia de, indiscretamente tirar o «apenas só» de um deles.

O que me pareceu foi que Joveth estava nervoso, muito chateado. E por isso, sem tempo para pensar nas construções frásicas – quer ele lá saber disso – soltou o que lhe mais próximo vinha à cabeça: «Apenas só disse isso» e mais nada.

Nada’ e ‘apenas’ são advérbios e possuem o mesmo valor semântico. Ambos excluem a possibilidade de haver algum intruso semelhante na frase. Ou se usa ‘’ ou se usa ‘apenas’. « disse isso» ou «apenas disse isso”. E nada mais. Não pode nem deve haver contiguidade com esses dois advérbios de exclusão. ‘Apenas’ é igual a ‘’, embora ‘’ já esteja a adquirir, em Angola, um outro valor semântico – «por favor».

 

1 Corruptela do inglês brothers, «irmãos».

2 «Encontros», na gíria luandense noturna.

3 Vintes Cucas, a cerveja angolana.

 

Outros textos do autor

* Crónica publicada no semanário luandense Nova Gazeta, no dia 4 de junho de 2015, na coluna do autor, Professor Ferrão. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico, seguida ainda em Angola. :: 04/06/2015

Sobre o autor

** Edno Pimentel é professor do ensino secundário em Luanda e assina no jornal Nova Gazeta a coluna Professor Ferrão sobre os usos da língua portuguesa em Angola.