Os Descobrimentos e eu... (2) - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Os Descobrimentos e eu... (2)

A especifidade literária indo-portuguesa inclui no seu vocabulário «chatim», «chatinar», «bouço»,«langotim», «cambolim», etc. E a língua Concani dos goeses ficou com tantas outras palavras de origem portuguesa. A conversão para o cristianismo substituiu o templo pela «igorz», «vedi» pelo «altar», «bhôtt» pelo «padri», ao mesmo tempo que o outro lado da realidade humana assumia também uma forma indo-portuguesa com «merd», «fodrichó», «fuj-da-put», e «bonk» (bom cú)! 

Já vos contei donde vem o meu apelido Souza, com um z à moda antiga. Desde que fixei a residência em Portugal, novamente como cidadão português, basta eu andar um pouco distraído trocam-me logo o z por s, em nome de modernismo linguístico!

Procuro estar vigilante. Acho que devem respeitar a diversidade, e eu prezo ser um oriundo do «antigo» Estado da Índia.

Provavelmente o apelido foi o que o meu antepassado Shantappa Kamat herdou do seu padrinho de baptismo. Aos neo-convertidos dava-se-lhes o nome da família do convidado de honra, que podia ser o vice-rei, o arcebispo, o capitão da região, ou o provincial dos religiosos. Sabemos que em 1558, foi padrinho de baptismo do ourives-mor de Goa o próprio vice-rei, e já antes disso, D. Manuel tinha ao seu serviço um ourives indiano Raulu Chatim (Raulu Shet) durante os anos 1518-20. E é bem conhecida a custódia de Belém! (1) 

Os baptismos gerais foram os Jesuítas que os iniciaram em Goa. Faziam-nos duas vezes por ano. Empenhavam-se muito os religiosos em recolher o maior número possível de catecúmenos durante os meses que precedessem à festa da Conversão de São Paulo. Era a festa do orago do colégio de São Paulo em Goa. Os Jesuítas no Oriente foram por isso conhecidos como padres Paulistas. Eram épocas de verdadeiras «caçadas». Os excessos de zelo justificavam por vezes meios dolosos. Seduziam as crianças inocentes com doces. As crianças ficavam desta forma poluídas («battló» em Concani), e excluídas automaticamente da convivência familiar segundo os costumes que regiam a sociedade tradicional hindu. 

Os Franciscanos, a quem tinha sido confiada a minha província de Bardez (nome derivado de bara + desh, o que signfica doze territórios em Concani) para os efeitos de missionação, não queriam ficar para trás dos Jesuítas. Havia uma verdadeira rivalidade. Os Jesuítas proclamavam aos quatro ventos os seus feitos missionários através das suas famosas cartas ánuas que enviavam para a Europa. O historiador jesuíta Mafei chegou ainda a gozar com os Franciscanos. Escreveu que eles andavam por aí ocupados com «salmodias e os responsos pelos mortos». 

Embora o espírito seráfico dos Franciscanos não lhes permitise serem mais agressivos, é de admirar o que conseguiram. Os bardezanos como eu, têm mantido esse espírito franciscano de maior tolerância cultural e de diálogo com os hindus. É o contrário o que se nota ainda hoje entre os salcetanos e os demais convertidos dos Jesuítas em Goa. Mas devo reconhecer todavia em seu favor, que foi precisamente essa militância herdada dos Jesuítas, que possibilitou aos goeses em tempos recentes preservar a identidade cultural e política de Goa como um Estado autónomo e com uma língua oficial distinta, nomeadamente a língua Concani. Foram os cristãos das províncias de Salcete e Ilhas, descendentes dos convertidos dos Jesuítas, que protagonizaram e continuam a liderar nas lutas políticas de Goa, a partir da sua integração na Índia em 1961. 

Para voltar outra vez ao nome hindu da minha família, conheço alguns descendentes da mesma estirpe que continuaram a levar após o seu nome cristão, o acréscimo «kamti». Havia um Nasu (Nascimento) Kamti , um Salu (Salvador) Kamti, e mais. Descobri aos poucos, através das histórias que os meus avós me contavam quando eu era muito miúdo, que «kamti» («Camotim» para os portugueses) era o presidente do «bhaus», uma associação agrícola dos que se especializavam no cultivo dos arrozais nos terrenos baldios, nas aldeias situadas nas margens dos rios. O meu avô continuava ligado com esta tarefa.

Conhecido afectuosamente na aldeia como «lam Jaku» (Joaquim, o Alto) e «Jaku tiu» (tio Joaquim), o meu avô tinha que estar inevitavelmente presente para as medições dos campos para os efeitos de arrendamento. 

O meu avô não tinha quaisquer estudos formais, mas calculava as medidas e as fracções delas com uma perícia incrível. E conhecia bem as tradições locais. Ainda o seu vestuário era todo tradicional: um langotim para lhe cobrir o essencial, e mais nada. Levava uma toalha nos ombros para limpar o suor, e às vezes servia-se dela como turbante. Durante a época das chuvas acompanhava-se sempre de cambolim (kambllém) para se proteger das chuvas, mas servia-lhe também como manta. Tinha um fato escuro para quando visitasse a vila de Mapuçá para a feira semanal. Havia uma lei portuguesa que requeria isso dos homens, e as mulheres deviam cobrir os peitos! Mas logo que o meu avô deixava para trás a fronteira da vila, voltava ao seu vestuário mínimo, lançando algumas imprecações contra os «branc de merda, fodriche, calçãocar…». Isto, e mais algumas bravatas, era o vocabulário português a que eu me habituara já desde pequeno, e antes de entrar na escola primária.

Só não conhecia o signficado preciso das palavras, nem que fossem de origem portuguesa. A gente ouvia latim durante a missa, sem saber que era latim, e Kyrie eleison durantes as ladaínhas que se recitavam no fim do terço que se rezava em casa, ou se cantavam perante o cruzeiro do bairro. Na Índia é comum ouvir tantas outras línguas indianas! Mais uma língua (portuguesa) não se dava por uma novidade! De resto era a «amchi bhas» (nossa língua), como os goeses referem à sua língua Concani, que se falava em casa.

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   (1) Shett significa ourives. Como também recebiam ouro em penhor e em troca de empréstimos de dinheiro, tornaram-se também homens de negócios. Na era dos Descobrimentos, há numerosas referências aos portugueses no Oriente, ocupados em «chatinagem». O cronista e o primeiro director do Arquivo de Goa, Diogo do Couto, considera esses negócios privados como uma principal causa da decadência do poderio militar dos portugueses no Oriente. No ano passado foi organizada no museu de S. Roque de Lisboa uma magnífica exposição da ourivesaria indo-portuguesa em Portugal, e a exposição foi chamada «Raulu Chatim». Foi produzido nessa ocasião um esplêndido catálogo da exposição.

   (2) kambllém é tecido de lã cru.

Sobre o autor

Teotónio R. de Souza (1947-2019). Historiador nascido em Goa, ex-sacerdote católico, foi fundador e diretor do Centro Xavier de Pesquisas Históricas. Era professor catedrático na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, no departamento de História. Foi diretor do jornal da Associação dos Cientistas Sociais do Espaço Lusófono e diretor-adjunto da revista Fluxos e Riscos- Revista de Estudos Sociais.