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[Lusofonias] - Política de língua

Os perigos da "imagináutica" *

Carlos Reis**

«A dinâmica de pluralidade e de diversificação que atinge a língua portuguesa confronta-se com um desafio: o de fazer dela um fator de produção e difusão do conhecimento. Para isso, carecemos de um idioma de modelização científica com coesão e com rigor conceptual.» Artigo publicado no mensário português "Jornal de Letras", de 25 de junho de 2014.

 

 

1. Recordo-me da perplexidade quase escandalizada que Caetano Veloso desatou, quando chegou a Portugal a sua canção “Língua”, uma perplexidade suscitada por aquilo que, para a receção portuguesa, era provocatório: a invocação de Camões naquele contexto («Gosto de sentir a minha língua roçar/A língua de Luís de Camões»), a carga de erotismo e a ambivalência daquela “língua”, ao mesmo tempo língua-idioma e língua-corpo.

No desenvolvimento de uma subversiva desconstrução cultural e linguística, aquilo que no poema de Caetano Veloso se contesta é a imagem do idioma emanado do Portugal metropolitano e eurocêntrico. O resultado disso é uma reorientação que refaz a imagem da língua como pátria, a «última flor do Lácio», tal como se diz no famoso soneto de Bilac. Decerto que (diz Caetano) «minha pátria é minha língua», mas já não a portuguesa de Portugal, antes a da Mangueira, encenada em euforia carnavalesca, flor do Lácio reinventada do lado de baixo do Equador, lá onde, como se sabe, não existe pecado: «Flor do Lácio Sambódromo/Lusamérica latim em pó/O que quer/O que pode essa língua?”»

2. O que quer a língua reivindicada por Caetano Veloso é um espaço próprio, liberto da tensão entre o centro e as margens, uma língua de quem diz: «A língua é minha pátria/E eu não tenho pátria: tenho mátria/Eu quero fátria».

É nesse espaço próprio, às vezes entendido como margem e resultado de deriva, que encontramos os «perigos da imagináutica». Convoco Mia Couto e reporto-me a um dos textos de Cronicando, de 1991, intitulado “Escrevências desinventosas” e motivado por uma ordem dada a quem era então um jovem jornalista, proibindo a invenção de palavras na língua dita materna. Cito: «Não é que eu tivesse intenção de inventar palavras. Até porque acho que palavra descobre-se, não se inventa. Mas a ordem me deixou desesfeliz. Primeiro: porquê meter a mãe no assunto? Por acaso sou filho da língua, eu?» E mais adiante: «Acusar-me de inventeiro, isso é que não. Porque sei muito bem o perigo da imagináutica. Às duas por triz basta uma simples palavra para alterar tudo. Um pequeno «d» muda o esperto em desperto. Um simples «f» muda o útil em fútil. E outros tantíssimos, infindáveis exemplos.»

Para aquilo que agora me interessa, levanto três questões.

Primeira: importa saber que riscos corre o sujeito da língua, seja ele jornalista ou ficcionista, naquela navegação (ou naquela imagináutica) não isenta de ambiguidades. Trata-se de uma criatividade estilo-linguística literariamente consequente ou estamos tão-só perante um “barroquismo” de horizonte estreito?

Segunda questão: se a inventiva coutiana faz parte de um programa estilístico próprio, ainda que não original, ela constitui um ponto de partida muito fecundo para desenvolvermos um pensamento não apenas sobre a língua, mas sobre o seu futuro, num amplo, multicultural e plurilinguístico universo; a esse universo chamamos da língua portuguesa, não raro esquecendo que ele é habitado por outras línguas, por outras visões do mundo e por diferentes programas políticos.

Terceira: se o texto de Mia Couto induz uma reflexão sobre a língua, ele não ignora as injunções contextuais que a condicionam. Não se pensa a língua portuguesa nem se faz política de língua sem se ter em conta a funcionalidade e a conformação literária de que, em Mia Couto e noutros mais, o idioma é objeto. A língua literária é plasmada em função de uma situação comunicativa específica, com um singular potencial semântico-pragmático, coisa que muitas vezes se ignora, quando se convoca o testemunho dos escritores em matéria linguística.

Para além disso (ou até antes disso), não se pensa a língua de modo semelhante em Portugal ou em Moçambique, no Brasil ou em Angola, à revelia dos tempos históricos, dos cenários políticos e dos índices de desenvolvimento próprios de cada espaço de um idioma que, para o bem e para o mal, é multicontinental e de geografia descontínua.

Procuro sintetizar: não se busca coerência onde ela não existe, nem absoluta unidade onde ela é utópica. Digo-o hoje, porque estamos num tempo histórico em que, no plano linguístico, o conceito de metrópole, como centro de referência matricial da língua, perdeu sentido; com isso, relativizou-se a instância da normatividade, entendida como doxa linguística; uma relativização que não significa, note-se, o desprezo pela regulação linguística (o que é já outro assunto). De forma mais sugestiva, sublinho, então, o seguinte: a navegação pelos mares da língua não tem agora sentido único, porque ela é viagem de ida com volta marcada. E nunca se regressa como se partiu.

3. Volto, entretanto, a Mia Couto e ao volume Cronicando, porque também ele vive a língua como viagem ou, talvez melhor, como seu efeito. Ao texto que citei segue-se, no mesmo volume, um outro intitulado “A morte nascida do guardador de estradas (aos puristas da língua)”. Os puristas da língua têm, de facto, muito que se lhes diga; não faltam, felizmente, argumentos contrapesando o seu zelo, provindos de autores às vezes acoimados de estrangeirados, quando não de antipatrióticos. Aconteceu assim com o mencionado Garrett e com Eça, com Almada Negreiros e com Saramago, entre outros; do mesmo modo, quem defende o Acordo Ortográfico não escapa ao ferrete da traição à Pátria.

Por diferentes caminhos, Mia Couto também não se furta ao zelo purista, no tempo pós-colonial em que paira sobre o universo da língua portuguesa um fantasma chamado lusofonia. Já falei dele noutros momentos e, por isso, passo adiante. A crónica “A morte nascida do guardador de estradas (aos puristas da língua)” é uma parábola passada numa estrada em que opera um guarda atento aos desvios de quem por ela transita; para esse guarda, perigosos são os caminhantes que se aventuram pelo carreirinho que conduz aos subúrbios da língua. Ou ao sulbúrbio, como prefere Mia Couto, que alerta para uma dinâmica da língua e dos seus percursos que o guarda (este e os demais) não alcança. Cito: «O que ele não via era o seguinte: é que o pé, posto em viagem, anula a condição terrestre. Em troca, o chão se vai desnudando: na alma humana surgem as pegadas do planeta. Afinal, os carreiros, esses perigosos surgentes, não servem apenas para levar os viajantes. Eles próprios se movem junto com a travessia.»

4. A reflexão que aqui tenho desenvolvido incide, em parte, sobre as derivas da língua, as alternativas e os trajetos em que, por entre os perigos da imagináutica, se vai decidindo o destino do português. Mas essa reflexão enquadra-se num mais vasto âmbito de cogitações, conduzindo a temas e a subtemas a que me refiro de forma inevitavelmente sucinta.

Assim: falar em espaço da língua portuguesa implica que se fale também na relação entre espaços da língua portuguesa, no plural, porque é disso que se trata. Daqui decorrem tensões que não podemos ignorar, remetendo para a dialética entre centro e periferia e entre conservação normativa e inovação transgressora. Na mais construtiva das hipóteses, a feição plural dos espaços da língua portuguesa será entendida como indutora de diferenças que enriquecem um idioma disseminado por cenários de complexa configuração cultural e linguística. Mas aquele enriquecimento é uma metáfora e, como quase sempre acontece com as metáforas, ela diz uma coisa para esconder outra ou outras. Para além disso, a dinâmica de pluralidade e de diversificação que atinge a língua portuguesa confronta-se com um desafio: o de fazer dela um fator de produção e difusão do conhecimento. Para isso, carecemos de um idioma de modelização científica com coesão e com rigor conceptual. A questão melindrosa não é apenas a de saber quem produz esse conhecimento, mas quem assegura aquela coesão e como o faz. A esta junta-se outra: quem rege e com que autoridade (não penso em países, mas em instituições) o processo de internacionalização da língua portuguesa, esse de que muito se fala, mas que pouco se vê?

A complexidade dos desafios a que aludo é determinada em grande parte pelas circunstâncias em que hoje vivemos as “negociações” (num sentido amplo, não comercial e nem sequer político) em que se decide muito do que fica dito. A descolonização de que resultou o cenário político e linguístico a que tenho feito referência é recente: tem cerca de quatro décadas. É muito para as nossas breves vidas humanas, mas pouco para a das nações. A independência dos países a que a dita descolonização deu lugar gerou novos atores, novos poderes e conceções autónomas do que deve ser a língua oficial, conceito que consabidamente não é vivido do mesmo modo em Portugal ou em Cabo Verde, em Angola ou em Timor. Para além disso, as assimetrias e as diferenças (de dimensão, de economia, de desenvolvimento humano, etc.) que atravessam o mundo da língua portuguesa são flagrantes e chegam a parecer irresolúveis; e o Brasil, com o seu crescente poder geoestratégico e económico, ocupa neste concerto um lugar que nem todos entendem e que alguns não aceitam.

5. Os movimentos de diferenciação do idioma não são solidários com a salvaguarda da sua coesão e unidade relativas. O que motiva uma dúvida: dentro de cem anos, entender-nos-emos em português?

Estão aqui em equação tendências antagónicas, que, com licença pelo esquematismo, tento resumir. Por um lado, valorizamos os usos do idioma dominados pela criatividade individual e pela propensão para introduzir nas práticas linguísticas elementos de inovação (sobretudo no léxico, mas também na articulação fonológica – ou na “pronúncia”, para nos entendermos). Os escritores e a sua vocação para a deriva e para a rutura (para a imagináutica, em suma) ocupam aqui um lugar proeminente, mas também ambivalente (um dia teremos que falar sobre isto, com desassombro). Por outro lado, é com mal disfarçado comprazimento que proclamamos o português como fator de agregação do mundo chamado “lusófono”, agregação atestada pela existência de uns supostos 250 milhões de falantes. O número impressiona, mas tende a oscilar, em função do maior ou menor entusiasmo de quem esgrime tão esmagadores milhões, não se levando em conta normalmente quem, desses milhões, fala mesmo português como língua primeira, é alfabetizado e vive com um mínimo de dignidade. Sendo assim – ou seja, entre a Cila e a Caríbdis da diferenciação e da coesão – temos que decidir o que queremos. Aqui como em tudo, querer e possuir as duas coisas seria excelente, mas parece difícil.

 

Outros textos do autor

* Artigo publicado no mensário português "Jornal de Letras" :: 30/06/2014

Sobre o autor

** Carlos Reis (Angra do Heroísmo, 1950) é ensaísta, professor da Universidade de Coimbra e ex-reitor da Universidade Aberta, em Lisboa.  Especializado em Literatura Portuguesa dos séculos XIX e XX e em Teoria da Narrativa, publicou, sobre esta área, vários livros de prestígio internacional e assinou dezenas de artigos em revistas universitárias. Catedrático de renome, tem sido professor convidado em muitas outras universidades. Exerce também larga atividade em diversos jornais e revistas, dando colaboração regular no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Entre várias distinções atribuídas, contam-se o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho em 1996. É Comendador da Ordem de Isabel la Católica, Benfeitor do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e doutor honoris causa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Autor dos blogues Eça de Queirós (investigação, ensino e debate sobre temas queirosianos) e Figuras de Ficção.

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