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[Lusofonias] - As línguas de Angola

100 mil crianças angolanas já envolvidas
Português + 1 língua nacional, logo na 1.ª classe *

Onélio Santiago**

Em Angola como se recorda nesta notícia publicada no semanário luandense "Nova Gazeta", de 20/11/2014 , mais de 100 mil alunos, de nove províncias, já aprendem línguas nacionais na escola primária, juntamente com o português.

 

 

As línguas nacionais [de Angola] já são leccionadas como disciplinas na 1.ª classe em 681 escolas do ensino primário, num processo que envolve 2458 professores e 113 227 alunos. Quanza-Norte, com 43 025, é que tem mais alunos, enquanto a Huíla, com 134, é a província com mais escolas. Os dados são da secção de línguas nacionais do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação (INIDE), coordenada por António Chamuhongo. No entanto, esta estatística é «provisória», porque inclui apenas os dados de nove províncias, das quais Luanda não faz parte. O objectivo, segundo António Chamuhongo, é «reaver» o ensino da cultura nacional, através das línguas nacionais e implementar o bilinguismo, permitindo que se comunique em português e numa das línguas nacionais. «Todo o angolano deverá ser bilingue, com capacidade de usar correctamente uma língua nacional e a oficial, que é o português”, explica.  

De 2004 a 2010, o INIDE experimentou o ensino de línguas nacionais em sete províncias, da 1.ª à 3.ª classes. O cokwe foi experimentado na Lunda-Sul, o quicongo no Zaire, o quimbundo no Quanza-Norte, o ngangela no Cuando-Cubango, o ulunyaneka no Huambo, o oshikwanyama no Cunene e o umbundo no Huambo. A escolha destas áreas esteve relacionada com as zonas de origem, ou seja, com a variante padrão de cada língua. O processo decorreu em três escolas de cada província, envolvendo 15 turmas e 15 professores que já faziam parte do sistema educativo e dominavam alguma língua nacional. Terminada a experiência, o INIDE deu início à fase de consolidação, que consiste na inserção «paulatina» da disciplina de Línguas Nacionais no ensino, começando pela 1.ª classe.    

 

O desconhecimento da língua da sua etnia

 

O Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA) assume-se como “uma referência” no ensino das línguas nacionais. Desde 1993 que a instituição lecciona quimbundo, umbundo e quicongo no curso médio de educadores sociais, que tem a duração de três anos – da 10.ª à 12.ª classe. De acordo com o seu director, António Panzo, nos primeiros anos – ainda na década de 1990 –, a instituição obrigava os estudantes a optarem por uma língua nacional diferente da etnia a que pertenciam, com o objectivo de «fomentar a unidade nacional». «Quando um umbundo aprende a falar quimbundo, em princípio, adquire coragem e motivação para se relacionar com quem pertence à etnia da língua que ele aprendeu», justifica. No entanto, passados alguns anos, o ICRA viu-se obrigado a rever as suas políticas depois de constatar que existiam muitos alunos que não conheciam sequer a sua própria língua nacional.

Actualmente, cada estudante escolhe uma, entre as três línguas previstas no plano curricular, como José Russo Cassete, de 18 anos, na 11.ª classe a estudar para educador social. Nunca falta às aulas de umbundo. Apesar de já ter algumas noções, graças ao que aprendera com os avós, sente que adicionou «muita coisa nova» e elogia o «rigor» e a «clareza» com que os professores de línguas lhe têm ensinado. «Seria uma maravilha se os outros estudantes do médio passassem pela mesma experiência», considera.

O entusiamo de José Russo Cassete é partilhado por Jéssica Capina, também com 18 anos, que optou pelo umbundo. Só lamenta o «contacto tardio» que teve com a língua dos pais. «Se as línguas nacionais existissem em todas as escolas do ensino primário, seria impossível um jovem de 18 não saber sequer saudar em quimbundo ou quicongo».  

 

Falta de formadores

 

Apesar de considerar que do «ponto de vista de documento» as línguas nacionais já estão no plano de estudo do ensino primário e da formação de professores, António Chamuhongo recusa-se a avançar prazos para a sua inserção em todas as escolas. «Não podemos prever o tempo. É muito difícil fazer uma proposta de datas. Há muito trabalho por fazer... não há formadores», esclarece, acrescentando que os professores que participam do processo são os que já dominavam alguma língua nacional e beneficiaram de uma formação de 15 dias, ministrada por técnicos angolanos e sul-africanos.

O director geral do ICRA, António Panzo, entende que «estão reunidas todas as condições» para inserção das línguas nacionais no currículo escolar. Este académico lembra que a Universidade Agostinho Neto e o ISCED de Luanda «há muito tempo» que leccionam cursos ligados à língua e literaturas africanas. «Tem de se começar com o que se tem. Quando o ICRA inseriu as línguas nacionais no currículo, também não tinha professores suficientes, mas hoje até nos damos ao luxo de mudar professores», revela António Panzo, que considera existir «cobardia e falta de boa vontade daqueles que deviam tratar do assunto». 

 

Alfabetos ainda aquém das necessidades pedagógicas

 

Uma das «grandes preocupações» do docente universitário Zavoni NTondo, em relação às línguas nacionais, prende-se a escrita. Doutorado em Linguística Africana pela Universidade Lumièr de Lyon, em França, Zavoni NTondo entende que o Instituto de Línguas Nacionais fez um «grande trabalho», elaborando a ortografia dos alfabetos das línguas nacionais, mas lamenta que estes mesmos alfabetos continuem a ser «ignorados». «É fundamental que um som corresponda a apenas uma grafia. Porque é que um único som adquire três a cinco grafias diferentes? Por que razão não se chega a um consenso que ajude a eliminar estas dificuldades?», questiona o académico, referindo-se à duplicação que surgiu na escrita do kwanza.  

O chefe do departamento de Línguas e Literaturas Africanas do Instituto Superior de Ciências da Educação, Mbiavanga Fernando, lembra que os primeiros alfabetos em línguas nacionais foram elaborados em 1987, tempo que o académico acredita que se «podia começar» a fazer alguns ensaios, mas, de lá para cá, houve «uma certa resistência», motivada por questões «bastante subjectivas». «As pessoas continuam a olhar para o lado comercial das línguas. O inglês, em Angola, dá maior garantia de emprego, comparativamente ao quicongo», considera, sem deixar de salientar que o problema é de África e não apenas de Angola.

 

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Atlas linguístico ainda por concretizar

Os técnicos do Instituto de Línguas Nacionais (ILN) trabalharam de 10 a 19 deste mês no Uíge, no projecto do mapeamento linguístico de Angola. A ‘missão de campo’ foi antecedida de um seminário, em que os técnicos do ILN seleccionaram alguns quadros locais que, depois de formados, vão dar continuidade aos trabalhos que visam identificar as línguas e as variantes faladas em cada província, município e comuna. De acordo com o director do ILN, José Pedro, os dados recolhidos servem para a elaboração do Atlas Linguístico de Angola cuja conclusão poderá acontecer dentro de dois anos. Antes do Uíge, os técnicos do ILN estiveram em Cabinda, Cunene, Huíla e Kwanza-Sul.

 

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Manuais a  mais, professoares a menos

A quantidade de manuais de ensino das línguas nacionais é «desproporcional» ao número de professores capacitados. De acordo com o responsável da secção de Línguas Nacionais do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação, António Chamuhongo, reduziu-se a produção de materiais para se dar «prioridade» à formação de professores para, posteriormente, elaborarem-se manuais com garantia de que haverá professores para os usarem.

* notícia publicada no semanário angolano "Nova Gazeta", de 20 de novembro de 2014. Título e subtítulos da responsabilidade do Ciberdúvidas, tendo-se mantido a grafia anterior ao Acordo Ortográfico, conforme o que é seguido ainda em Angola. :: 20/11/2014

Sobre o autor

** Onélio Santiago é um jornalista angolano. Escreve no semanário angolano "Nova Gazeta".

 

 

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