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[Pergunta | Resposta]

«Arriscado e perigoso»

[Pergunta] «Era um jogo arriscado e perigoso.»

Há redundância nessa frase?

Obrigado.

Fernando Bueno :: Engenheiro :: Belo Horizonte, Brasil

[Resposta] Não me parece haver uma resposta categórica à pergunta, porque muito depende do partido estilístico que se pretenda tirar da coordenação de sinónimos e da redundância daí resultante.

A expressão contém efetivamente certa redundância, por envolver dois sinónimos, perigoso e arriscado, facto que poderá constituir razão suficiente para a rejeitar. Observe-se, porém, que os substantivos perigo e risco, pressupostos mais ou menos diretamente pela formação destes adjetivos, estabelecem entre si certo contraste, como propõe o Dicionário dos Sinónimos Poético e de Epítetos da Língua Portuguesa, de J. I. Roquete e José da Fonseca:

«O perigo refere-se a um mal mais imediato que o risco. Aquele aplica-se sempre à contingência de grande momento; este costuma aplicar-se a coisa de menor consequência. Está em perigo de perder a vida o soldado que se acha em frente de uma bateria inimiga. Corre risco de cair doente o que passa sem precaução do calor ao frio. O primeiro refere-se a um mal mais iminente e mais próximo que o segundo. – Quem joga na lotaria corre risco de perder seu dinheiro; e não se diria está em perigo, etc., o que suporia um mal muito maior que o que corresponde àquela ideia.

Um valente que despreza os riscos costuma arrepender-se de sua temeridade à vista do perigo

Nesta perspetiva, é, pois, legítimo considerar que, em «um jogo arriscado e perigoso», «perigoso» não é simples reiteração do significado de «arriscado» e, portanto, a expressão não é redundante ou pleonástica. Além disso, é frequente uma sequência constituída por dois sinónimos coordenados servir para enfatizar uma ideia, chegando a fixar-se como combinatória lexical (p. ex., «é certo e seguro»: «[...] era certo e seguro que o ministro mandaria um telegrama de condolências à família», João de Melo, Autópsia de Um Mar em Ruínas, 1992, citado pelo Corpus do Português, de Mike Davies e Michael Ferreira). Contudo, do ponto de vista do estilo, este tipo de expressões pode revelar-se também demasiado convencional e pouco criativo – portanto, menos recomendável.

Carlos Rocha :: 06/04/2015

[Léxico]
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